Um desafio aos leitores!!

Já que umjeitomanso.blogspot.com me «anunciou» enquanto Contadora de Histórias, vamos lá pôr-me à prova! Quem se interessar, envie-me email (diazinhos@gmail.com) ou deixe comentário num dos textos, com uma palavra ou frase que me «inspire» para um próximo texto. A ver se pega e a ver se estou à altura..

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Luzes da Ribalta (História pedida por UmJeitoManso.blog inspirada em "Plural: eis o que sou mas não sei explicar" de Casimiro de Brito)

Se um dia fores ter comigo ao camarim, deixo-te pintar os lábios vermelhos, reflectida naquele espelho de mil luzes qual filme de Hollywood.
Deixamos os outros no palco, em ensaios e conversas indecifráveis, e vamos as duas lá atrás, fazer de conta que temos outra vez 10 anos e brincamos às raparigas dos filmes, como nos tempos de escola.
Empresto-te a minha escova prateada, o perfume mais que intenso, os brilhos dos olhos e até o rouge carmim.
Entrego-te as minhas lantejoulas, as plumas rosa para o cabelo, os colares de voltas para o pescoço. Vamos rir-nos porque, de repente, estamos outra vez no pátio da escola, o banco como palco e os nossos sonhos pelo ar.
Agora empoleira-te nestes saltos que tanto amaldiçoo, que me deixam perfeita sob os holofotes e fumos de cheiro, mas me pontapeiam as cruzes e os rins depois dos primeiros minutos de espectáculo.
Sabes que, na verdade, isto é tudo um show, um faz de conta que inebria nos princípios, faz-nos levitar e acreditar que somos infinitos, para - muita estrada e música depois -, nos esvaziar em cada regresso a casa.
No palco sou plural, sou o que sou sem saber explicar.
Vá, está quase na hora. Toma as luvas de cetim rosa, as pulseiras que fingem brilhar e um último retoque ao espelho. Estás perfeita.
Sim, podes até fazer de mim hoje. Sobes ao palco, assim, toda disfarçada desta que fiquei eu, enches-te de sorrisos e olhares sensuais e deixas que a música entre em ti.
Depois é só deixares-te ir. Confia em mim, fácil, fácil.
Eu fico por aqui, neste velho camarim com um espelho em que se faz dia, espero por ti, pacientemente até que tudo acabe, os aplausos, os autógrafos, os abraços festivos, até que aqui chegues. Liberto-te docemente de todas essas máscaras de mil cores, pego-te na mão e vamos sozinhas para casa.

Eu regressada a mim.


quarta-feira, 8 de maio de 2019

Amor Clandestino (história pedida por Anónimo, com este título)

Mão na pele
e pele na mão
A boca no canto
em pura paixão

Perna que se enrola
no corpo desvairado
Peito que se cola
em jeito consolado

Suspiro suado
na ponta dos dedos
Ais que se consomem
em todos os segredos

Arrepio que ferve
de dentro para fora
na curva que serve
o tempo que demora

Aquece e queima
numa dança sem lei
É vontade que teima
E ainda nem comecei...

terça-feira, 7 de maio de 2019

A minha musa teve sempre vários corpos (História pedida por UmJeitoManso.blog inspirada pela frase de Casimiro de Brito)

«Ai Rita quando for grande quero ser como tu!
Oh filha, mas tu já estás nos 40, de que estás a espera?»
 
Brevíssimo silêncio, mesmo à (minha) Rita.

«Além disso, que grande coisa essa de ser como eu.


Sim, quero tanto ser como tu, com essa largueza de pensamento, esse dom infinito com as palavras, os
pensamentos, as ideias, tudo de uma inteligência e de uma finesse sem igual. 


Olha, assim quase que me convences.»


Recosta-se no cadeirão de verga, almofadas verde-seco, usado, cheio de histórias sensuais, debaixo deste alpendre carregado de flores e romantismo. Os cabelos loiros enjeitados num desatino e aquela gargalhada rouca que tanto amo:

«Não sei se não serás mesmo mais do que eu minha querida.»


Com a Rita é assim, nunca sei se diz estas doçuras para agradar-me ou se aquilo lhe vem de dentro. Certo é que me sabe bem e, quando estou perto da Rita, encontro-me.

Gosto quando me conta das histórias que está a escrever, das que tem por escrever e das que me inventa. 

«Na verdade, a questão é que não sei se quero ser grande. Gosto de colo e de mimo, preciso de festas na cabeça e de alguém que me leve pela mão. E tu Rita não és nada disso, és rochedo e vendaval desembestado, és senhora de ti e do teu trono, do teu mundo. És inspiração e respiração pausada. E
 eu gostava tanto de ter isso em mim.»

Ela fuma, longas baforadas sexys e redondas, eu pego no meu caderno inspirado e recomeço a escrever. Foram muitos dias, meses e mundos longe das palavras. Agora ela trouxe-me de volta, qual musa inspiradora distante e etérea que me faz crescer.

A minha musa teve sempre vários corpos e hoje consigo nomeá-los a todos. Chego aqui com esta certeza: a minha musa é o amor, nos seus vários feitios e disfarces. Não podia ser melhor... uma musa sem tempo-fim, infinita e plena que me dá a mão sempre que me dispo do mundo e a deixo, assim, chegar de rompante e sem aviso, bem como eu gosto.



(História que casou este regresso com o pedido inspirado da UJM - e com a grande escritora portuguesa que tanto admiro... adivinham quem?)

domingo, 5 de maio de 2019

No Forno

Pois que a UmJeitoManso me desafiou, de várias formas e feitios e a sua história está já no forno...

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Estou de volta!

Ainda terei alguém desse lado?
Tanto tempo, tanta vida, tanto mundo, tantas histórias depois, regresso a esta minha casa. A vontade de escrever e um tempo mais benevolente deram as mãos e trouxeram-me de volta.
Assim, regresso ao tempo das Histórias de Nós, pedidas por vós, ficando aqui eu na minha janela à espera que me desafiem, como antes, com uma palavra, uma frase, um título, uma imagem, o que vos aprouver, para eu devolver, em jeito de agradecimento, uma história.
Até já.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Amanhã de Manhã

Soubesse eu escrever música e seria definitivamente esta que gostaria que fosse de minha criação. Um verso que fica e uma melodia encantada.
Volto aqui tanto tempo depois da última vez para partilhar um (novo) momento alto da música portuguesa, escrita e cantada em bom português.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Absolutamente extraordinário! Vídeo impresssionante made in Portugal

Depois de tanto tempo - e porque o tempo ultimamente é mesmo o meu bem mais escasso - volto aqui para partilhar o videoclip mais extraordinário a que assisti, de uma banda portuguesa de uma qualidade fenomenal. Não deixem de ver este impressionate e fiel retrato dos nossos dias! Vejam e partilhem. Devemos apoiar o que é nosso, principalmente num momento tão difícil para a cultura em Portugal, em que até os projectos de qualidade - como este, definitivamente - encontram as maiores dificuldades para fazerem o seu caminho. Aproveitem :)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Bom dia

Há um momento em que desaparecem os limites entre a tua pele e a minha e é nesse momento que deixo de saber se sou eu, se tu, quem se prende em mim. Há um momento, mágico, em que os teus dedos entrelaçados nos meus deixam de ser teus para serem meus e os meus, teus e nos deixamos ficar assim, sem tempo para acabar e em que o tempo deixa de contar. Há um momento em que as nossas respirações entram em unissono, rítmico, igual, e em que o meu sorriso se encontra no teu de menino adormecido - a sonhar sonhos bons. Gosto de entreabrir os olhos para espreitar-te assim, de sorriso leve, doce, que vem lá do fundo de ti. Gosto de todos os teus sorrisos quando estás de olhos postos em mim, mas gosto ainda mais do teu sorriso adormecido, abandonado, esquecido das correrias e contra-tempos, só feliz por estares aqui. Há um momento, que se quer eterno, em que somos iguais, almas gémeas reencontradas um no outro, corpos abandonados dos dias e em que resta apenas a essência do nós que somos um perto do outro. Eu e tu, nestes momentos nossos, somos mais-que-perfeitos, somos um.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mais-que-perfeito

Estamos no topo da montanha, no topo do meu mundo. Encho o peito deste ar transparente e doce, dou uma volta sobre mim - braços bem abertos, claro, há que abraçar estes momentos encantados  – tenho vontade de cantar bem alto e tenho vontade deste silêncio cristalino. O verde nas rochas cinza, brutas, agrestes, esconde um bocadinho destes que somos nós. Estamos enleados na natureza e isto é tão bom assim.

«Procura a minha mão», penso para mim. E os teus dedos tocam os meus. «Puxa-me para ti», penso. E num instante estou encaixada no teu peito. «Toca-me levemente como só tu sabes nestes cabelos negros impossíveis», penso. E logo a tua boca beija a curva da minha nuca.

Vamos ser sempre assim, digo-te num segredo, a voz esmagada pela plenitude daquele sítio, daquele momento. Nosso. Dizes-me que sim com um beijo demorado na minha boca. Gosto quando demoras os teus lábios nos meus. Devias fazê-lo mais vezes, mesmo entre as tuas pressas e correrias. O teu sabor no meu-que-é-teu-que-é-meu. Aquela coisa do mais-que-perfeito, que nos oferecemos um ao outro desde o nosso princípio.

Devíamos começar a descida, vamos demorar e os outros esperam-nos lá em baixo, naquelas ânsias de voltar. Sempre todos a quererem voltar: dão uma espreitadela, suspendem a respiração e depois toca a correr de volta para os dias iguais. Mas eu só quero ficar, parar, respirar, sentir. E estar contigo assim na minha pele.

Podia fazer aqui uma casinha, um T zero ínfimo, só assim um tecto para abrigar-nos nos dias de chuva ou do sol fervente do Verão que queima, nestas terras que tanta falta me fazem lá no nosso mundo de todos os dias. Pois era, fazíamos assim um abrigo e vivíamos aqui em contemplação, suspensos, alimentando-nos desta pureza toda, desta transparência. E do nosso amor.

«Vamos».

Trazes-me de volta ao que deve ser, à normalidade, lembras-me que os outros estão lá em baixo à nossa espera, que ninguém vive de amor e do ar e da transcendência e de frios bons na beira da pele. Nem isso pode ser assim só por termos a sorte de ter a mão na mão um do outro.

Sorris e levas-me contigo, cheio de felicidade dentro de ti.

«Podíamos casar-nos aqui». Saiu-me e tu gostaste. Eu que sempre te adiei esse dia, agora podia ser já. «Agora podia ser já; gosto disso», dizes-me tu como tantas vezes dizes do que me sai para ti.

A descida é rápida contigo a guiar-me, eu vou perdendo a minha leveza, vou ganhando o peso dos dias de todos os dias, do que tem de ser, do que deve ser e já não sou aquele ser alado em que me torno quando estou lá em cima, no meu mundo.

É esse mundo que quero agora e já que passe a ser nosso, o nosso mundo onde voltamos toda e cada vez que os teus lábios se demoram nos meus e a tua pele passa a ser a minha. Queria, agora e já e para sempre, assim.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Aurora

Uma menina pequenina, pequenina, rodopiava sobre si mesma e cantarolava uma música triste. Mas sorria e até lhe podia ver os olhos a brilhar. Era uma menina doce, de longas tranças negras, vestido de folhos encarnados a encher os ombros e o fim da saia que rodava e rodava sem parar.

Esta menina, pequenina, tão pequenina estava sozinha e nem dava pelo tempo passar. As mãozinhas abertas deixavam o vento bom correr entre os dedos e a pele arrepiava-se em minúsculas bolinhas com o frio que lhe enchia a barriga e o peito. A menina estava sozinha mas estava feliz. Era o sabor da liberdade que tinha na boca, nos olhos, na pele e se rodopiava sem parar era porque nada mais lhe apetecia fazer. Só assim a sentir o bom que é ser feliz. E solta, livre, a voar.

Parámos todos a olhar, quietos, mudos, sem percebermos bem ao que vinha e porque ali se demorava; não sabíamos se devíamos perguntar-lhe o que quer que fosse ou agarrar-lhe a mãozinha rosada para ver se a fazíamos sossegar. A respiração presa, uma vontade sem vontade de a fazer parar.

A menina pequenina, mesmo pequenina, sozinha, tão sozinha nem via os tantos que agora a rodeavam, sem saberem o que fazer ou pensar, enleados naquela canção triste e doce, naquele rodopiar sem parar, no encarnado dos folhos, nas perninhas roliças incansáveis, no imenso sorriso que a enchia de flores e coisas boas por dentro.

Um a um fomos desviando o olhar, seguindo o caminho, não querendo pensar se ela ficaria sozinha por mais um minuto ou uma vida, mas com uma inveja a crescer-nos por dentro, com vontade daquele sentimento puro e leve, com vontade de cantar, de dançar ou mesmo com um mundo inteiro na palma da mão.

Estou aqui no meu canto e lembro-me daquela menina encantada, sozinha no meio dos crescidos que a olhavam admirados e sorrio, sorrio mesmo de dentro para fora e do princípio ao fim de mim, porque agora percebi: ela sou eu.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Na Rua das Flores

Eram doces as horas que passava longe de ti, depois de ti. Passo a explicar: longas eram as horas em que te esperava, colada à janela, os dedos gelados no vidro frio, sustendo a respiração à espera de te ver chegar. Se o tempo parava enquanto ali não estavas, certo é que desaparecia quando estava junto a ti. Ainda agora chegavas e já era tempo de ires. Mesmo que tivesses estado em nós por uma manhã, uma hora, ou um mês. Mas depois doces eram as horas em que tinha ainda o teu cheiro no meu braço e o teu sabor a sal cá por dentro de mim. Visceral. Tu eras visceral em mim. Toda eu sorria, toda eu me demorava a lembrar as palavras e os gestos. Era a doçura de lembrar o bom de estarmos feitos um. Não custavam as horas de volta da roupa, o ferro a queimar, o cabelo colado na testa, o cheiro a suor que também era ainda um bocadinho teu. Não custava a senhora lá dentro a pedir os chás, nem os meninos que me puxavam em gritos, nem sequer a má cara do senhor. É verdade que os dias em que tardavas a aparecer custavam um bocadinho mais, a respiração sustinha-se e ansiava pelo teu recado. «Hoje estou aí». Sempre assim, com essa tua letra desenhada e tombada, que enchia a folha branca de papel que me cheirava a ti. O miúdo dos jornais trazia-me o teu recado enrolado no bolso e ia-se a rir, não sei se do meu sorriso, se da moeda gorda que acabava de ganhar. Nesses dias deixava a porta dos fundos só no trinco, tu puxavas o cordelinho e deitavas-te de mansinho ao meu lado, na minha cama que era nossa e assim deixava de ter princípio-fim. Os senhores nunca punham pé no meu quarto e por isso podias por ali ficar o que quisesses. O que tu quisesses. Se fosse por mim chegavas e não ias nunca mais. Nunca te fiz uma pergunta, nunca pedi tempo, nunca te disse mais do que o bom que era ter-te para mim. Naquele dia havia festa lá na rua dos meus pais. Contei-te dos fogos e das sardinhas, das minhas gentes e do tanto que te queria levar. Contei-te dos miúdos e dos berlindes, das avós e mezinhas, da casa que tinha como minha e que esperava por nós. Sobressalto. Teu. E um silêncio negro de chumbo. Mas nesse dia eu não era aquela eu de todos os dias contigo, naquele dia eu estava feliz demais, tão demais, porque tu tardaste na minha cama, não corrias… e porque naquele dia me trouxeste uma rosa encarnada. E eu ia falando de uma vida para nós enquanto olhava aquela rosa encarnada tão bonita na minha cómoda escura, o teu peito encostado nas minhas costas e eu desenhando novos dias para nós enquanto as minhas mãos dançavam no ar, felizes na antecipação de uma vida para os dois. Uma noite disseste-me: gosto de ver as tuas mãos assim, a contarem as tuas histórias. Mas nesse dia não disseste nada. Acho que suspiraste, assim uma espécie de um respirar triste e sem volta. Saíste da cama e eu a falar, a falar dos dias em que esperava por ti, dos dias em nos lembrava, do quanto te queria em mim para sempre, sim sempre e sempre e sempre e nem ouvi as calças a esconderem o teu corpo, nem o passo arrastado das tuas botas pesadas, nem sequer a porta a bater. Sem volta. Continuei a falar, a dizer tudo de nós, o que calara por tanto tempo e já só falava e enchia o quarto de palavras já sem sentido, de palavras já fora de prazo e com pouco de mim, palavras que ia desenhando no ar como faço desde miúda. Enchi aquela rosa de lágrimas e esvaziei-me ali. Em confissão. Nessa noite rodei e bailei sem parar. Os rapazes puxavam-me para dançar e eu leve, infinitamente leve, voava nos seus braços. A rosa encarnada não saiu do meu cabelo e ao fim da noite estava encantada a ver os fogos ao luar.

domingo, 31 de agosto de 2014

Agosto na praia dos Pescadores

Prenderam-me a atenção: ela sentada no barco, arrastado pela areia à força de um tractor velho demais para ainda andar na arte, ele a acompanhar o barco, de sorriso no sorriso dela, a mão pousada sobre a dela, os dois assim sem palavras, só o vento a levar-lhe o cabelo para os olhos - a ela - e a encher-lhe os olhos claros de lágrimas - a ele. À volta a confusão de todos os dias, os gritos possantes, as gargalhadas frondosas, o palavreado que fere os ouvidos dos lisboetas que só ali vão de passeio, a cantoria das mulheres, fortes e cheias, de peito pesado e mãos ligeiras.

O barco baptizado de «Até que Enfim» desliza na areia como num rio espelhado e as redes seguem-nos carregadas de peixe luzidio. Ele segura-a num salto leve e um riso feliz enche a praia. Logo um pescador de voz grossa o chama de chapão, que se deixasse de parvoíces e fosse puxar as redes. Tudo isto bem regado de palavras impossíves de transcrever. O sorriso dela cai devagarinho na areia e o rapaz lá salta para o meio da confusão, tronco nú, queimado e musculado, pele grossa do sol e sal.

(A história deles não ma contaram por palavras, ninguém se abeirou de mim e me disse das suas razões - pena que tenho, porque se há coisa que gosto é que me contem histórias, me encham de sorrisos de outras vidas, me mostrem mundos outros que não o meu - mas a história destes dois fui sabendo nas minhas tardes de Verão na Costa, ali bem perto de casa e ao mesmo tempo tão longe de tudo.)

Susana chegara há pouco para o Agosto em Portugal. A velha história daqueles que fogem da vida difícil à procura de qualquer coisa melhor lá fora. Em França, perfeito cliché, claro está. Ela não tem mais que 20 anos, mas a ele só o sorriso de menino o trai, porque o corpo e o passo pesado dão-lhe duas vezes mais idade. Joaquim. Quim dos Anzóis, como chamam os mais novos ao vê-lo passar com as galochas ensopadas e o cabelo loiro num desalinho. Loiro daquele amarelo queimado pelo sol, rebelde e àspero, tão diferente do cabelo de Susana que liso se cola ao vento, castanho e sem história.

(Agora para conseguirem ver esta história com a luz que eu a vejo, têm que lembrar-se das tardes ventosas deste Agosto, das pessoas fugidias ou enfiadas nos seus chapéus e toalhas, e mesmo da doçura deste Verão que não sufoca e nos deixa mais despertos para as histórias que nos rodeiam. Pelo menos é o que me acontece a mim. Gosto do vento na cara, inspiro-o com força, encho-me e crio reservas desse fresco e caminho ate à pontinha do mar, até estas ondas carregadas dos últimos dias e deixo os salpicos pintarem-me as pernas secas e encherem-me de um arrepio bom.)

À noite há sempre conversa e música ali na casa da Tia Arminda, todos cá fora, cadeiras de plástico, um rádio com música a passar, um dos velhos mais bebido puxa uma das avós para dançar, a risota, a simplicidade dos momentos bons naquelas vidas duras que marcam o corpo e vincam a pele. Joaquim e Susana bem perto um do outro, as mãos que se tocam quando ele lhe passa uma Fanta, o sorriso dela que se esconde do olhar dos avós. Tudo fica ainda mais doce enquanto o sol poisa ao de leve no mar enraivecido.

Estou ali por perto, numa tasca improvisada com chapéus de uma marca qualquer de cerveja, enquanto me derreto num gelado bem doce. A minha companhia momentaneamnte silenciosa deixa-me aproveitar para ouvir a conversa de duas mulheres de cabelo branco revolto e mãos rudes como homens. «Isto já dura há muito, bem sabes. Não te lembras que em miúdos não se largavam? E no dia em que a Suse se foi, gaiata ainda, não tinha mais que uns 12 anitos mal amanhados, ele foi atrás do carro até lá ao cimo da rua, ficou muito tempo parado, a olhar, mãos nos bolsos e nem uma palavra, nem um gesto, nada. E assim se ficou calado, até ao Verão seguinte em que ela veio de férias. E assim tem sido sempre. Este meu neto é de ideias bem feitas, já te digo. Estou farta de avisá-lo para esquecer o raio da moça, vai haver um Verão que já não volta, fica agarrada de vez a um finório lá na França e depois fica-me aqui o rapaz calado para sempre». A outra ri-se «Até parece que não te lembras como era no nosso tempo...o Agosto era sempre uma galhofa, tantas histórias para contar...». Rio-me com elas. E vejo aqueles dois, lá ao fundo, no vão de uma escada, os corpos encostados e as mãos dele a apertarem-na no ar.

No próximo Verão hei-de cá voltar. Em Agosto ninguém me vai tirar a Praia dos Pescadores. Quero saber destes dois e em que fica esta história. Se o barco passar vazio no areal, o Joaquim mudo e orfão do seu sorriso de menino, salto ligeira para o «Até que Enfim» - esquecida dos tantos anos e mundos que nos separam - e dou-lhe o meu melhor sorriso à espera que a sua mão me venha agarrar. Pelo menos, até Agosto acabar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Regressos

Vá desafiem-me, ponham e disponham de mim, piquem-me, façam-me acordar. Levem-me de volta ao prazer da palavra escrita, da minha imaginação que se deixa ir ao encontro da vossa vontade, das minhas histórias que letra-a-letra nos unem por alguns instantes. Levem-me a inventar-vos um conto, uma ideia, um pequeno começo-meio-fim, levem-me a conhecer-vos sem vos ter ao lado, levem-me para aquele sítio em que sou tão feliz, com uma caneta imaginária na boca, os olhos fechados e um caderno meio cheio apertado no meu colo. Vamos lá, vamos pôr-me à prova, saber se ainda por aqui andam as tantas histórias que me enchem os dias de todos os dias, as histórias de todos nós, os episódios que nos fazem crescer e avançar de novo. Vamos encontrar, uma e outra vez, estas histórias que andam pululando por aqui à minha beira, prontas, prontinhas para saltarem cá para fora. A escrita, mais que um prazer é uma necessidade. Vamos lá.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Físico-Química

Há uma coisa em nós que é só nossa. Ou melhor, há uma coisa em nós que é só minha. Talvez seja também tua, mas nunca me disseste. Se assim for, estaremos perto da perfeição. Há uma coisa em nós que é o nosso sabor. Eu passo a explicar: o meu sabor é o teu e o teu é o meu. Mesmo com os cigarros, os iogurtes de morango, ou as horas de silêncio, ainda assim o meu sabor é o teu. A minha boca encontra-se na tua. O nosso sabor é o meu. E é esse meu sabor que encontro em ti que me faz esquecer - naquele preciso instante do nosso beijo - o tanto que me magoas e me fazes doer. Naquele instante em que o nosso sabor é um só, tudo passa. Claro que depois por qualquer coisa ou por muita coisa, tudo volta a torcer e a doer; mas naquele nosso instante, não. Por isso talvez seja essa a única coisa que faz sentido, que explica e que segura. Esse teu sabor é meu, sabe a nós e sabe a casa. Já me disseste tanto e ainda não me disseste nada. E assim vamos andando, entre abraços que apertam e palavras que doem. Enquanto o teu sabor for o meu, vou continuando. De mãos na cabeça e no coração. A agarrar-te e a afastar-te, num vai-vem que cansa, mas a que estamos condenados. Ao fim deste tempo percebo aquilo que me disseste um dia de um nosso beijo eterno. Eternamente condenados a nós, enquanto o teu sabor me souber ao meu.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Vai ser tão bonito descobrir

Nós havemos de nos ver os dois Ver no que isto dá Ficar um pouco mais a conversar Ter a eternidade para nós Quem sabe jantar Se tu quiseres, pode ser hoje Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Nós havemos ambos de encontrar Um destino qualquer Ou um banquinho bom para sentar Vai ser tão bonito descobrir Que no futuro só Quem decide é a vontade Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Que seja agora Que seja agora Se é pra acontecer Pois que seja agora (dos Deolinda)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

In & Out

Há muito tempo que não me ponho bonita para ti. Há muito tempo que não me faço bonita como sei que gostas, que não me arranjo, que não me ponho com o que te faz tremer, que não mostro o melhor de mim. Por fora e por dentro. E durante muito tempo só mostrei o mau, quis mesmo só mostrar-te o pior, o escuro, o difícil. Por dentro e por fora. Para saberes de tudo de mim. Há muito tempo que não te seduzo, que não olho no fundo dos teus olhos com malícia, que não te faço o sorriso quente que sei que te faz desassossegar, que não te digo ao ouvido as palavras que sei que te fazem gemer.
Há muito tempo que não te procuro da mesma forma como te procurava no início de nós, no meio de nós, no que sempre fomos nós. Há muito tempo que não te provoco, que não te tento, que não te quero fazer derreter. De todas as formas; por dentro e por fora. Há muito tempo que não te namoro, que não te procuro assim, que me deixo apenas levar por ti. Agora é o tempo em que me deixo conduzir por ti, sem procurar, forçando-me a ser paciente e a esperar pelo teu tempo. Até chegar, de vez, o nosso tempo. E quando chegar, vou olhar-te bem por dentro, vou encostar a minha boca bem no canto da tua orelha fria, o meu sorriso a chamar-te, a pedir-te, a tentar-te e a sussurrar baixinho «chegou o nosso tempo» enquanto enrolo as minhas pernas nuas em ti.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Para hoje

Para hoje: a lua que mais alta brilha, A curva da Arrábida, o frio que me faz tremer nas tuas mãos e que enche ainda mais o teu abraço de mim. Esta música na noite e dentro de nós (podia até ser, com sorte, - minha - que te convencesse a dançar um slow gelado). Para hoje era assim, só doçura num momento nosso que dura para sempre. As simple as this.

sábado, 16 de novembro de 2013

Noite de cinema (ou talvez não)

O reencontro puro, mesmo que sem pele, mesmo que sem cheiro. Mas o reencontro, finalmente, no que ouviu, no tom, nas palavras, doces como ele. Ela vira-se assim, do avesso, mostra tudo, diz tudo até ao fim e então, finalmente, finalmente, ele volta. Ela sorri toda, flui, torna-se leve por um instante e de olhos bem brilhantes.
Lembra-o do tanto que gosta dele, do difícil que é, da falta da sua boca na dela, dos abraços que faziam deles apenas um.
Agora, só quer que ele não se vá, que fique, assim, sempre. Mas já não tem coragem de pedir. Já não vai pedir mais nada, deixa-se só a acreditar.

(pára a fita e a crú no ecrã: Intervalo)

(grande Lou Reed, a banda sonora perfeita, música linda, linda, linda)
When I think of all the things I've done
and I know that it's only just begun
Those smiling faces, you know I just can't forget 'em
but I love you
When I think of all the things I've seen
and I know that it's only the beginning
You know those smiling faces, I just can't forget 'em but for now, I love you
Just for a little while oh baby, just to see you smile
Just for a little while
When I think of all the things I've done and I know that it's only just begun
Oh, smiling faces, Jesus, you know I can't forget 'em
But for now, I love you right this minute, baby now
I love you at least for now,
I love you

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Black & White Love

Saudades do teu sorriso ao ver-me chegar. Saudades do teu sorriso difícil de chegar. Saudades do teu sorriso nas palavras fáceis. Saudades do teu sorriso raro. Saudades do teu sorriso que é só para mim. Saudades do teu sorriso no meu. Saudades de todos os teus sorrisos.


There are many many crazy things
That will keep me loving you
And with your permission
May I list a few

The way you wear your hat
The way you sip your tea
The memory of all that
No they can't take that away from me

The way your smile just beams
The way you sing off key
The way you haunt my dreams
No they can't take that away from me

We may never never meet again, on that bumpy road to love
But I'll always, always keep the memory of

The way you hold your knife
The way we danced till three
The way you changed my life
No they can't take that away from me