Então...?
Que queres?
Que me digas qualquer coisa.
Já não sei que mais te hei-de dizer.
Diz-me uma coisa doce.
Gosto de ti.
É bom, mas podia ser melhor.
Gosto muito de ti.
Ainda não chega...
Queres demais.
Porque só assim é bom a sério, mesmo.
Penso em ti a cada segundo.
Bom, bem bom...
Agora já chega.
Mas ainda falta tanto!
Demais.
Um desafio aos leitores!!
- Histórias de Nós
- Já que umjeitomanso.blogspot.com me «anunciou» enquanto Contadora de Histórias, vamos lá pôr-me à prova! Quem se interessar, envie-me email (diazinhos@gmail.com) ou deixe comentário num dos textos, com uma palavra ou frase que me «inspire» para um próximo texto. A ver se pega e a ver se estou à altura..
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
Num dia de Domingo
Sentou-se, abriu a boca lentamente e saiu uma longa argola de fumo. Se há coisa que sempre a atrai no acto de fumar são aqueles desenhos esvoaçantes, diáfanos, quais medusas e ainda mais quando o via fazer um coração. Coisa infantil aquela, mas a que sorria sempre. Olhava-o então, ele a fumar, ela cara virada para não sentir aquele cheiro a cigarros que tanto a incomodava.
Durante uns tempos sonhou que fumava e acordava com uma inconcebível vontade de pegar num cigarro e esfumá-lo todo num àpice. Mas, depois, o sabor dos beijos dele lembravam-na o amargo que era aquele vício quente que não despega.
Entre eles sempre um cigarro. Apesar de ele saber das asmas dela, do nariz tapado, do engolir em seco para não lhe pedir mais uma vez que deixe de fumar. E sempre a história do avô que morreu sem ar, pulmões queimados pelos tantos cigarros de tantos anos, da tosse que parecia que o ia levar a cada instante, da fraqueza em que andava já meses antes de morrer. Da despedida que não aconteceu. Do imenso que ainda queima esse adeus por dizer. Da carta que deixou ao lado do caixão - palavra feia esta, coisa feia, coisa sem jeito nem sentido - com o que devia ter dito com a mão na mão fria do avô. Mas que não conseguiu.
Ele agora vê-lhe a sombra nos olhos e no gesto, afoga a beata no copo de vinho, puxa-a para ele, encosta-a si, aperta-a, sossega-a, diz-lhe baixinho "tenho aqui uma coisa para ti", abre devagarinho a boca e ela vê sair um coração transparente, leve, esvoaçante, só para si.
Durante uns tempos sonhou que fumava e acordava com uma inconcebível vontade de pegar num cigarro e esfumá-lo todo num àpice. Mas, depois, o sabor dos beijos dele lembravam-na o amargo que era aquele vício quente que não despega.
Entre eles sempre um cigarro. Apesar de ele saber das asmas dela, do nariz tapado, do engolir em seco para não lhe pedir mais uma vez que deixe de fumar. E sempre a história do avô que morreu sem ar, pulmões queimados pelos tantos cigarros de tantos anos, da tosse que parecia que o ia levar a cada instante, da fraqueza em que andava já meses antes de morrer. Da despedida que não aconteceu. Do imenso que ainda queima esse adeus por dizer. Da carta que deixou ao lado do caixão - palavra feia esta, coisa feia, coisa sem jeito nem sentido - com o que devia ter dito com a mão na mão fria do avô. Mas que não conseguiu.
Ele agora vê-lhe a sombra nos olhos e no gesto, afoga a beata no copo de vinho, puxa-a para ele, encosta-a si, aperta-a, sossega-a, diz-lhe baixinho "tenho aqui uma coisa para ti", abre devagarinho a boca e ela vê sair um coração transparente, leve, esvoaçante, só para si.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
A História com um título interminavelmente longo
Estou capaz de jurar que hoje às 5h30 da madrugada, em plena Lisboa, ouvi um galo a cantar. Mas como, senhores, se aqui não há mais que prédios e, na melhor das hipóteses, alguns relvados e parques infantis?
E isto porque o meu mais pequeno teima em desafiar todos os manuais e bíblias pediátriacas e, quase a chegar ao primeiro ano de vida, ainda acorda duas vezes por noite (se a coisa correr bem) para beber o seu leite. E isto já passando à frente das três semanas em que teve que beber o seu referido leite à colher - sim, é verdade, ao que uma pessoa pode chegar - por ter ganho uma inexplicável e, a meu ver, infundada aversão ao biberon. Agora, de repentemente, reconquistou-o, sabe-se lá como nem porquê; mas eu ando a agradecer efusiva,entusiática e frequentemente a todos os santinhos pelo facto - consumado.
Mas então que Eu ouvi um ga-a-aliiiinhoooo as 5h30 da madrugada (isto assim até quase que dava uma cantiga) e fiquei entre o espantada e o siderada. E enternecida, para dizer a verdade. Coisa misteriosa e sem aparente justifição, ao fim dos 10 anos em que já estou nesta casa, de repente dar com fauna campestre assim tão perto.
Se calhar alguém se lembrou de pôr um galo na marquise (será?), quem sabe se não por causa da crise (será?), talvez o galo todo dia fugindo gritando «ai cuidado não me pise!» (será?) que isto de viver num apartamento é coisa apertada, com falta de largueza, com falta de ar.
Mas então que faço uma coisa muito mais inteligente do que sossegar e pôr-me a dormir as poucas horas de sono que ainda me restam para hoje. Ponho-me a escrever. E, se não tivesse a minha sra.dona racionalidade a buzinar-me nos ouvidos vai para mais de 30 minutos, ainda deixaria sair mais e mais destas palavras que se me brotam de dentro para fora, até me esvaziar e assim ficar mais leve para adormecer.
E isto porque o meu mais pequeno teima em desafiar todos os manuais e bíblias pediátriacas e, quase a chegar ao primeiro ano de vida, ainda acorda duas vezes por noite (se a coisa correr bem) para beber o seu leite. E isto já passando à frente das três semanas em que teve que beber o seu referido leite à colher - sim, é verdade, ao que uma pessoa pode chegar - por ter ganho uma inexplicável e, a meu ver, infundada aversão ao biberon. Agora, de repentemente, reconquistou-o, sabe-se lá como nem porquê; mas eu ando a agradecer efusiva,entusiática e frequentemente a todos os santinhos pelo facto - consumado.
Mas então que Eu ouvi um ga-a-aliiiinhoooo as 5h30 da madrugada (isto assim até quase que dava uma cantiga) e fiquei entre o espantada e o siderada. E enternecida, para dizer a verdade. Coisa misteriosa e sem aparente justifição, ao fim dos 10 anos em que já estou nesta casa, de repente dar com fauna campestre assim tão perto.
Se calhar alguém se lembrou de pôr um galo na marquise (será?), quem sabe se não por causa da crise (será?), talvez o galo todo dia fugindo gritando «ai cuidado não me pise!» (será?) que isto de viver num apartamento é coisa apertada, com falta de largueza, com falta de ar.
Como a bolacha maria da praxe, decido-me por mais outra porque já não posso com toda a gente a dizer-me que estou muito magra, que até estou, corro a enfiar-me na cama, puxo os 4 edredons e 11 cobertores, porque são tempos gelados estes e ponho-me sossegadinha a ver se o mais pequeno não se lembra de vir outra vez com a sua chantagem emocional-o-psicológica-o-tortural a obrigar-me a deitá-lo ao meu lado, na minha almofada, no meu abraço, e a fazer-me acordar de 30 em 30 minutos com mil formigas rabigas (o que será isto de ser rabiga? Não faço ideia, mas soa-me a coisa que não me importava de ser) a subirem-me braço acima e a descerem-me braço abaixo num corropio.
Mas então que faço uma coisa muito mais inteligente do que sossegar e pôr-me a dormir as poucas horas de sono que ainda me restam para hoje. Ponho-me a escrever. E, se não tivesse a minha sra.dona racionalidade a buzinar-me nos ouvidos vai para mais de 30 minutos, ainda deixaria sair mais e mais destas palavras que se me brotam de dentro para fora, até me esvaziar e assim ficar mais leve para adormecer.
Mas fico-me pela curta história do galo que acordou cedo, algures no meio de tanto cimento e betão, espantou-se e fez-se ouvir, perguntando-nos alto e bom som «Mas que será que estou aqui a fazer..?» e nós a encolhermos os ombros, virarmo-nos para o lado e a, finalmente, adormecer.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
História pedida 24 (por Marta M. com o título:): Life Changes
Venho dizer-vos que me vou embora. Vou sair daqui. Vou mudar.
Vou mudar tudo. O cabelo, a roupa, os dias e até as horas. Vou mudar de sítio, de casa, de país.
Vou mudar o que fazia, vou mudar o que vivia, vou mudar o tudo que era eu.
Vou com o meu amor, com as minhas crianças, com os sonhos de um mundo diferente. Com a vontade de aventura. De não ser a mesma, de descobrir uma nova Eu.
Vou-me embora para outros ventos, outras gentes, outros cheiros.
Vou-me embora para um novo caminho que não sei onde me levará.
E que bom que isso é. Um caminho que me leva para longe desta vida desapaixonada que nos vai consumindo os instantes, as emoções e o respirar. Longe deste ser igual aos outros, deste caminho já conhecido, deste tempo fugidio.
Vou ver os meus meninos a crescerem em liberdade, com ar e sem fronteiras, a pertencerem ao que sentem, a quererem um pouco mais, a saberem muito mais.
Vou à procura do sonho por inventar, das cantigas das crianças na sombra das àrvores dos meus novos dias.
Vou à procura sem ter que procurar.
Vou apenas. Vou.
Não quero despedidas, nem lágrimas, nem abraços que agarram.
Quero apenas ir. Para, quem sabe, um dia voltar.
A desejar à minha querida Marta a maior sorte e felicidade na sua aventura.
Vou mudar tudo. O cabelo, a roupa, os dias e até as horas. Vou mudar de sítio, de casa, de país.
Vou mudar o que fazia, vou mudar o que vivia, vou mudar o tudo que era eu.
Vou com o meu amor, com as minhas crianças, com os sonhos de um mundo diferente. Com a vontade de aventura. De não ser a mesma, de descobrir uma nova Eu.
Vou-me embora para outros ventos, outras gentes, outros cheiros.
Vou-me embora para um novo caminho que não sei onde me levará.
E que bom que isso é. Um caminho que me leva para longe desta vida desapaixonada que nos vai consumindo os instantes, as emoções e o respirar. Longe deste ser igual aos outros, deste caminho já conhecido, deste tempo fugidio.
Vou ver os meus meninos a crescerem em liberdade, com ar e sem fronteiras, a pertencerem ao que sentem, a quererem um pouco mais, a saberem muito mais.
Vou à procura do sonho por inventar, das cantigas das crianças na sombra das àrvores dos meus novos dias.
Vou à procura sem ter que procurar.
Vou apenas. Vou.
Não quero despedidas, nem lágrimas, nem abraços que agarram.
Quero apenas ir. Para, quem sabe, um dia voltar.
A desejar à minha querida Marta a maior sorte e felicidade na sua aventura.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Cantiga do suspiro
Um sopro, breve, fugidio, solto.
Um vento que me correu por dentro, louco
numa ansia de voar.
Uma dança de quem não quer parar,
um braço estendido, um arrepio de quem esqueceu respirar.
Uma perdição sem me perder,
um gesto gasto em prazer.
Um pedaço de nós que se soltou,
fez-se ao mundo, ganhou vontade, voou.
A sombra na janela fez-me parar,
encho a alma e o peito,
vou recomeçar.
Não sei que foi que me deu,
mas sei que no fundo deste suspiro tudo é meu.
Um vento que me correu por dentro, louco
numa ansia de voar.
Uma dança de quem não quer parar,
um braço estendido, um arrepio de quem esqueceu respirar.
Uma perdição sem me perder,
um gesto gasto em prazer.
Um pedaço de nós que se soltou,
fez-se ao mundo, ganhou vontade, voou.
A sombra na janela fez-me parar,
encho a alma e o peito,
vou recomeçar.
Não sei que foi que me deu,
mas sei que no fundo deste suspiro tudo é meu.
domingo, 15 de janeiro de 2012
HIstória pedida 23 (por Anónimo, com título:) O menino de sua mãe
Alexandrina teve cinco filhos. Todos eles homens.
Foi tentando, tentando e desistiu ao quinto rapaz. Não teria a menina cheia de laçarotes e vestidinhos mimosos. Assim, o quinto rapaz andou de roupa folhada, aprumada, cabelinho penteadinho em cachos, fofos bonecos de peluche e outras mimosices que tal.
Claro que cresceu no colo da mãe e no escárnio dos irmãos e da vizinhança.
Contra todas as expectativas fez-se muito homem e muito macho, capaz de fazer frente a qualquer grupo de meliantes mal intencionados ou até rufias malandrões. Mantinha era aquele primor no vestir, no pentear e até uma certa dengosidade no falar. Perfeito, diria a mãe, em jeito de desculpa por tantos anos a fazer dele a filha-boneca que não chegara a ter.
O pai, depois de tantos anos de consentimento calado, cada vez que via o filho ajeitar com a ponta do dedo o caracolinho maroto para trás da orelha, dizia-lhe em surdina: «Tu amaricaste-me o miúdo Alexandrina, ai amaricaste, amaricaste!»
Mas depois sossegavam quando o viam andar pelo talho, negócio da familia, a pôr os empregados na ordem cada vez que se demoravam mais num cigarro ou deixavam uma freguesa por atender: «Oh Ramiro, tu vê lá se queres mas é uma chapadona nas ventas à portuguesa qu'é p'ra veres o qu'é bom p'ra tosse!».
E aí suspiravam de alívio, em uníssono, perante a voz grossa e possante e esqueciam o avental impecavelmente branco e a cheirar a àgua de colónia.
Todas as dúvidas se dissiparam no dia em que o rapaz se filiou na claque dos Super-Dragões, do FêCêPê do seu coração. Agora o pai mostrava a todos, orgulhoso, as fotografias nos jornais com o seu filho a encabeçar aquela malta viril e enraivecida: «Isto é que é um homem com H maiúsculo, o meu rapaz!»
A mãe contorcia-se, mordia-se, rangia-se para não confessar que ainda no outro dia tinha visto o seu menino a sair pela porta dos fundos, de mão dada com o Marcelino da retrosaria, a quem todos chamam jocosamente de Madame Marcela.
É deixá-los estar, pensava. Amanhã é dia de jogo no Dragão e o meu menino lá vai comandar as suas tropas, de pelos de peito de fora e caracolinho bem penteado. E viva o futebol!
Foi tentando, tentando e desistiu ao quinto rapaz. Não teria a menina cheia de laçarotes e vestidinhos mimosos. Assim, o quinto rapaz andou de roupa folhada, aprumada, cabelinho penteadinho em cachos, fofos bonecos de peluche e outras mimosices que tal.
Claro que cresceu no colo da mãe e no escárnio dos irmãos e da vizinhança.
Contra todas as expectativas fez-se muito homem e muito macho, capaz de fazer frente a qualquer grupo de meliantes mal intencionados ou até rufias malandrões. Mantinha era aquele primor no vestir, no pentear e até uma certa dengosidade no falar. Perfeito, diria a mãe, em jeito de desculpa por tantos anos a fazer dele a filha-boneca que não chegara a ter.
O pai, depois de tantos anos de consentimento calado, cada vez que via o filho ajeitar com a ponta do dedo o caracolinho maroto para trás da orelha, dizia-lhe em surdina: «Tu amaricaste-me o miúdo Alexandrina, ai amaricaste, amaricaste!»
Mas depois sossegavam quando o viam andar pelo talho, negócio da familia, a pôr os empregados na ordem cada vez que se demoravam mais num cigarro ou deixavam uma freguesa por atender: «Oh Ramiro, tu vê lá se queres mas é uma chapadona nas ventas à portuguesa qu'é p'ra veres o qu'é bom p'ra tosse!».
E aí suspiravam de alívio, em uníssono, perante a voz grossa e possante e esqueciam o avental impecavelmente branco e a cheirar a àgua de colónia.
Todas as dúvidas se dissiparam no dia em que o rapaz se filiou na claque dos Super-Dragões, do FêCêPê do seu coração. Agora o pai mostrava a todos, orgulhoso, as fotografias nos jornais com o seu filho a encabeçar aquela malta viril e enraivecida: «Isto é que é um homem com H maiúsculo, o meu rapaz!»
A mãe contorcia-se, mordia-se, rangia-se para não confessar que ainda no outro dia tinha visto o seu menino a sair pela porta dos fundos, de mão dada com o Marcelino da retrosaria, a quem todos chamam jocosamente de Madame Marcela.
É deixá-los estar, pensava. Amanhã é dia de jogo no Dragão e o meu menino lá vai comandar as suas tropas, de pelos de peito de fora e caracolinho bem penteado. E viva o futebol!
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Um dia
Um dia hás-de contar-me de ti.
E promete-me que vai ser sem invenções, malabarismos, nem desejos mal disfarçados.
E diz-me que vais ser tu do princípio ao fim, sem máscaras, sem quereres mais que os quereres que são naturalmente teus, sem véus, sem outros que não tu dentro de ti.
Nesse dia que me contares assim tudo, mesmo tudo, vou pousar a minha mão em cima da tua, da tua perna ou do teu cabelo e vais perceber afinal que quem mais sabe de ti sou eu. Porque tu me deste esse mistério desvendado, porque me deixaste entrar assim tanto em ti.
Nesse dia nem vou deixar a porta aberta, para mais ninguém poder entrar.
Vou querer-te toda tu só para mim, toda tu, toda nua de tudo que não tu, despida e arrepiada na minha frente para eu te poder olhar. E ver. E ouvir. E sentir. Tu, toda tu, toda minha.
E então vou dar-te o abraço mais perfeito, dizer-te as palavras mais ternas, levar-te dentro de mim para sempre, para sempre e sempre, tu, toda tu, toda minha, bem apertada no mais fundo de mim.
Esse dia vai chegar um dia e não me faças esse abanar de cabeça a dizer-me que não, porque eu sei que um dia vai ser esse dia em que finalmente te vou ter toda para mim e eu vou enlaçar-te, vou prender-te e tu, toda tu, toda minha, não vais desaparecer mais assim.
E promete-me que vai ser sem invenções, malabarismos, nem desejos mal disfarçados.
E diz-me que vais ser tu do princípio ao fim, sem máscaras, sem quereres mais que os quereres que são naturalmente teus, sem véus, sem outros que não tu dentro de ti.
Nesse dia que me contares assim tudo, mesmo tudo, vou pousar a minha mão em cima da tua, da tua perna ou do teu cabelo e vais perceber afinal que quem mais sabe de ti sou eu. Porque tu me deste esse mistério desvendado, porque me deixaste entrar assim tanto em ti.
Nesse dia nem vou deixar a porta aberta, para mais ninguém poder entrar.
Vou querer-te toda tu só para mim, toda tu, toda nua de tudo que não tu, despida e arrepiada na minha frente para eu te poder olhar. E ver. E ouvir. E sentir. Tu, toda tu, toda minha.
E então vou dar-te o abraço mais perfeito, dizer-te as palavras mais ternas, levar-te dentro de mim para sempre, para sempre e sempre, tu, toda tu, toda minha, bem apertada no mais fundo de mim.
Esse dia vai chegar um dia e não me faças esse abanar de cabeça a dizer-me que não, porque eu sei que um dia vai ser esse dia em que finalmente te vou ter toda para mim e eu vou enlaçar-te, vou prender-te e tu, toda tu, toda minha, não vais desaparecer mais assim.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
No teu colo
Fica.
Onde?
Aqui.
Aqui, assim?
Sim, assim. Exactamente assim.
E para quê?
Para encostar o meu corpo ao teu, mais nada.
Tudo bem. Mas vai demorar muito?
O quê?
Essa tua vontade.
Depende.
Do quê?
De ti.
Como assim?
Pode ser que me faças ter ainda mais vontade de ti.
E como é que eu faço isso?
Quando olhas para mim assim, por exemplo.
E mais?
Quando me apertas assim, por exemplo.
E já chega?
Sim, mas se puderes fica só mais um bocadinho.
Então?
É que agora é a promessa de ti que me está a prender ainda mais.
Tudo bem, eu fico mais um bocadinho.
Perfeito.
E encaixou-se de mansinho no colo dele.
Onde?
Aqui.
Aqui, assim?
Sim, assim. Exactamente assim.
E para quê?
Para encostar o meu corpo ao teu, mais nada.
Tudo bem. Mas vai demorar muito?
O quê?
Essa tua vontade.
Depende.
Do quê?
De ti.
Como assim?
Pode ser que me faças ter ainda mais vontade de ti.
E como é que eu faço isso?
Quando olhas para mim assim, por exemplo.
E mais?
Quando me apertas assim, por exemplo.
E já chega?
Sim, mas se puderes fica só mais um bocadinho.
Então?
É que agora é a promessa de ti que me está a prender ainda mais.
Tudo bem, eu fico mais um bocadinho.
Perfeito.
E encaixou-se de mansinho no colo dele.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
História pedida 22 (por UmJeitoManso, excerto de poema de Ricardo Reis): Violetas em flôr
"Vem sentar-te comigo Lídia, à beira rio?" "Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos / se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias / mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro / ouvindo correr o rio e vendo-o." Ricardo Reis
À beira do rio nacem
bioletas ao cumprido,
já me bieram dijer
que querias cajar comigo
As moças ainda se ouviam lá ao longe, enquanto os dois se entretinham a encontrar-se. Nos olhos, nos cheiros, na pele e nas mãos um do outro. Os dois muito morenos, ela bem bonitinha, rosadinha, carnudinha; ele bem robusto, rijo, forte como todo homem da terra deve ser.
Era dia de lavar a roupa nas lajes do ribeiro e as moças subiam as saias acima dos joelhos para não se encharcarem. Sabiam que os rapazes as espreitavam no cimo da ponte de pedra - romana, diz o Ti Amilcar coçando a longa barba - e nestes dias os cabelos apareciam mais escovados e os vestidos mais cavados.
Mas eles os dois conseguiram perder-se dos outros, tal como ele pedira no papel sujo que lhe entregara na fila para a comunhão no domingo. Ouviam as moças a cantar, a roupa a ser torcida e estendida e até lhes chegava o cheiro a sabão, mas estavam num canto, num momento só seu.
"Que estás a fazer?", perguntou-lhe sentindo o olhar dele desaparecido para dentro da sua pele.
"Estou a conhecer os cantos à casa".
Ela sorriu porque isso lhe pareceu coisa solene, séria, coisa que parecia antever um futuro bem prolongado.
Os pés molhados pelo ribeiro, tocavam-se dentro de água, a mão na mão, o sorriso de um no rosto do outro.
O suspiro do prazer mais puro e sentido.
"Casa comigo Lídia"
"Não estás a falar a sério Juca. Não se brinca com essas coisas."
"Não estou a brincar. Quero-te para mim. Quero poder gritar a todos, lá do alto daquela ponte tão velha, que és minha, a tua voz que canta tão doce é minha, os teus olhos escuros são meus, as tuas ancas redondas são para mim, as tuas pernas frias, molhadas quem as beija sou eu".
Inclinou-se e beijou-lhe a ponta do nariz rosado.
E ela disse Sim.
À beira do rio nacem
bioletas ao cumprido,
já me bieram dijer
que querias cajar comigo
As moças ainda se ouviam lá ao longe, enquanto os dois se entretinham a encontrar-se. Nos olhos, nos cheiros, na pele e nas mãos um do outro. Os dois muito morenos, ela bem bonitinha, rosadinha, carnudinha; ele bem robusto, rijo, forte como todo homem da terra deve ser.
Era dia de lavar a roupa nas lajes do ribeiro e as moças subiam as saias acima dos joelhos para não se encharcarem. Sabiam que os rapazes as espreitavam no cimo da ponte de pedra - romana, diz o Ti Amilcar coçando a longa barba - e nestes dias os cabelos apareciam mais escovados e os vestidos mais cavados.
Mas eles os dois conseguiram perder-se dos outros, tal como ele pedira no papel sujo que lhe entregara na fila para a comunhão no domingo. Ouviam as moças a cantar, a roupa a ser torcida e estendida e até lhes chegava o cheiro a sabão, mas estavam num canto, num momento só seu.
"Que estás a fazer?", perguntou-lhe sentindo o olhar dele desaparecido para dentro da sua pele.
"Estou a conhecer os cantos à casa".
Ela sorriu porque isso lhe pareceu coisa solene, séria, coisa que parecia antever um futuro bem prolongado.
Os pés molhados pelo ribeiro, tocavam-se dentro de água, a mão na mão, o sorriso de um no rosto do outro.
O suspiro do prazer mais puro e sentido.
"Casa comigo Lídia"
"Não estás a falar a sério Juca. Não se brinca com essas coisas."
"Não estou a brincar. Quero-te para mim. Quero poder gritar a todos, lá do alto daquela ponte tão velha, que és minha, a tua voz que canta tão doce é minha, os teus olhos escuros são meus, as tuas ancas redondas são para mim, as tuas pernas frias, molhadas quem as beija sou eu".
Inclinou-se e beijou-lhe a ponta do nariz rosado.
E ela disse Sim.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Boca de Cena
Eu, tu, nós dois.
A sala vazia, a porta fechada. O eco dos outros ainda nas paredes, no chão, nas cadeiras abandonadas. Ali fizeram-se sonhos, criaram-se vidas.
Agora o palco é nosso, só nosso, já não estamos a actuar, ja não estamos a fingir, já somos nós no chão de madeira escura. As roupas ainda não são as nossas, mas a pele sim. O cheiro, sim. Despidos de outros, a sentirmo-nos só assim. No silêncio, no tempo que parou.
Chegas-te a mim. Chego-me a ti e deixo-me ir. O corpo na tua frente, o olhar dentro do teu. A minha mão que anseia pela tua.
Se soubesses tudo o que tenho para te dizer agora, fugirias de mim, eu sei.
Respiro fundo, ganho novo fôlego, as vozes dos outros que aqui estavam, ainda ecoam dentro de mim.
Tu à minha frente - expectante? ansioso? - e nós nada. Ou melhor, e eu nada.
Vejo-te a sorrir de dentro para fora de ti. Calado nos meus olhos.
As letras redondas juntam-se na minha língua, na minha boca, em mim toda.
Encho o peito de ar, olho-te, respiro-te. Coragem, chegou a hora. Sorrio.
«Amo-te».
A sala vazia, a porta fechada. O eco dos outros ainda nas paredes, no chão, nas cadeiras abandonadas. Ali fizeram-se sonhos, criaram-se vidas.
Agora o palco é nosso, só nosso, já não estamos a actuar, ja não estamos a fingir, já somos nós no chão de madeira escura. As roupas ainda não são as nossas, mas a pele sim. O cheiro, sim. Despidos de outros, a sentirmo-nos só assim. No silêncio, no tempo que parou.
Chegas-te a mim. Chego-me a ti e deixo-me ir. O corpo na tua frente, o olhar dentro do teu. A minha mão que anseia pela tua.
Se soubesses tudo o que tenho para te dizer agora, fugirias de mim, eu sei.
Respiro fundo, ganho novo fôlego, as vozes dos outros que aqui estavam, ainda ecoam dentro de mim.
Tu à minha frente - expectante? ansioso? - e nós nada. Ou melhor, e eu nada.
Vejo-te a sorrir de dentro para fora de ti. Calado nos meus olhos.
As letras redondas juntam-se na minha língua, na minha boca, em mim toda.
Encho o peito de ar, olho-te, respiro-te. Coragem, chegou a hora. Sorrio.
«Amo-te».
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
Ano Novo
Hora de arrumar os tachos, as panelas, a cafeteira e a colher de pau.
É tempo de esfregar a pedra da bancada, puxar-lhe o brilho, o cheiro, deixá-la como no primeiro dia. Seguem-se as espátulas, os rolos, as formas, os tabuleiros. Não nos esqueçamos dos panos, pegas e trapos.
E depois chega a hora de aproveitar.
O cheiro a pão quente e a bolo no forno enchem a casa tão vazia. A manteiga pronta a derreter no miolo mole e branco, a chávena a ferver com o chocolate. As cadeiras arrastadas, a mesa posta e reposta, os guardanapos de pano geometricamente dobrados, a marmelada bem doce que ate parece gemer. De prazer.
Os copos enchem-se de cor com o sol que passa nas cortinas de linho, os talheres repousam expectantes. O friso de florinhas rosa que se espreguiça nos pratos parece chamar-nos para a mesa.
Calma, aguardemos, não tardam a chegar.
O cuco do relógio ja avisou, estão quase a chegar, estão quase a chegar.
Não tarda vou estar perdida nos seus abraços, risos e graças que não entendo, a correr entre o forno e a mesa, o pão e os pequeninos, entre a vontade de os aproveitar e o querer dar-lhes tudo e mais ainda. Estão quase a chegar os meus meninos, os meninos dos meus meninos e agora tambem os mais pequeninos.
E eu perdida a querer todos, a saber de todos, a tocar todos, a olhar-lhes bem nos olhos a ver por onde andam.
Mas as horas são curtas, têm as suas vidas, o seu próprio tempo, o seu ritmo corrido e não tarda lá se vão de volta, deixando as cadeiras vazias e migalhas por todo lado.
Mas sei que daqui a um ano reggressam, no primeiro dia de cada novo ano voltam para ver-me, para calarem as saudades dos lanches da avó Rute, para me agarrarem a correr, me sorrirem a cada palavra, me dizerem da vida que lhes foge pelo relógio.
Deixem aprontar-me, esta tudo no devido lugar. Ja os oiço no portão lá fora, os meus queridos meninos acabaram de chegar.
É tempo de esfregar a pedra da bancada, puxar-lhe o brilho, o cheiro, deixá-la como no primeiro dia. Seguem-se as espátulas, os rolos, as formas, os tabuleiros. Não nos esqueçamos dos panos, pegas e trapos.
E depois chega a hora de aproveitar.
O cheiro a pão quente e a bolo no forno enchem a casa tão vazia. A manteiga pronta a derreter no miolo mole e branco, a chávena a ferver com o chocolate. As cadeiras arrastadas, a mesa posta e reposta, os guardanapos de pano geometricamente dobrados, a marmelada bem doce que ate parece gemer. De prazer.
Os copos enchem-se de cor com o sol que passa nas cortinas de linho, os talheres repousam expectantes. O friso de florinhas rosa que se espreguiça nos pratos parece chamar-nos para a mesa.
Calma, aguardemos, não tardam a chegar.
O cuco do relógio ja avisou, estão quase a chegar, estão quase a chegar.
Não tarda vou estar perdida nos seus abraços, risos e graças que não entendo, a correr entre o forno e a mesa, o pão e os pequeninos, entre a vontade de os aproveitar e o querer dar-lhes tudo e mais ainda. Estão quase a chegar os meus meninos, os meninos dos meus meninos e agora tambem os mais pequeninos.
E eu perdida a querer todos, a saber de todos, a tocar todos, a olhar-lhes bem nos olhos a ver por onde andam.
Mas as horas são curtas, têm as suas vidas, o seu próprio tempo, o seu ritmo corrido e não tarda lá se vão de volta, deixando as cadeiras vazias e migalhas por todo lado.
Mas sei que daqui a um ano reggressam, no primeiro dia de cada novo ano voltam para ver-me, para calarem as saudades dos lanches da avó Rute, para me agarrarem a correr, me sorrirem a cada palavra, me dizerem da vida que lhes foge pelo relógio.
Deixem aprontar-me, esta tudo no devido lugar. Ja os oiço no portão lá fora, os meus queridos meninos acabaram de chegar.
sábado, 24 de dezembro de 2011
Noite de Natal
Os dois, lado a lado, olhando o menino. As mãos tocavam-se sem se enlearem, os corpos encostavam-se sem se encaixarem.
O menino dormia sorrindo, sem saber ao que vinha.
Foram chegando uns e outros, traziam presentes e esperança.
E eles ali, sorrindo, sentindo apenas o milagre daquele momento, de terem ali o seu menino na caminha deitado, dormindo.
Uma estrela ao longe brilhava mais forte que as outras, iluminando o caminho. Todos queriam ver o menino-milagre, presenteá-lo, tocar-lhe ao de leve para se convencerem afinal que de facto estava ali.
Foram tantos anos à espera deste menino, berço da esperança e do amor... Anos de solidão e dor para todos os que agora ali se juntavam, com o coração cheio e os olhos brilhantes.
Ei-lo, nasceu o menino, ao fim de tanto tempo de sofrimento para aqueles dois, ela chorando no sangue que lhe corria do ventre, vendo as vidas que se esvaíam no chão, tantas e tantas vezes, o pai em grito mudo, abafando a sua dor.
As famílias dos dois acabariam ali, neste que agora é pai, nesta que agora é mãe. Dois nomes, dois sangues, duas histórias de gentes que tanto viveram e fizeram, duas famílias que morreriam assim.
Mas então que chega este menino-milagre, depois de tantas perdas, tratamentos e desamor, eis que ele chega, todos o olham incrédulos, de mãos apertadas, falando e até respirando baixinho para não acordar este menino-amor.
A todos um Feliz Natal cheio de amor, esperança e o calor dos nossos.
O menino dormia sorrindo, sem saber ao que vinha.
Foram chegando uns e outros, traziam presentes e esperança.
E eles ali, sorrindo, sentindo apenas o milagre daquele momento, de terem ali o seu menino na caminha deitado, dormindo.
Uma estrela ao longe brilhava mais forte que as outras, iluminando o caminho. Todos queriam ver o menino-milagre, presenteá-lo, tocar-lhe ao de leve para se convencerem afinal que de facto estava ali.
Foram tantos anos à espera deste menino, berço da esperança e do amor... Anos de solidão e dor para todos os que agora ali se juntavam, com o coração cheio e os olhos brilhantes.
Ei-lo, nasceu o menino, ao fim de tanto tempo de sofrimento para aqueles dois, ela chorando no sangue que lhe corria do ventre, vendo as vidas que se esvaíam no chão, tantas e tantas vezes, o pai em grito mudo, abafando a sua dor.
As famílias dos dois acabariam ali, neste que agora é pai, nesta que agora é mãe. Dois nomes, dois sangues, duas histórias de gentes que tanto viveram e fizeram, duas famílias que morreriam assim.
Mas então que chega este menino-milagre, depois de tantas perdas, tratamentos e desamor, eis que ele chega, todos o olham incrédulos, de mãos apertadas, falando e até respirando baixinho para não acordar este menino-amor.
A todos um Feliz Natal cheio de amor, esperança e o calor dos nossos.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
História pedida 21 (por a Matéria dos Livros, versos de Cesariny): Junto a ti
"Entre nós e as palavras, os emparedados, e entre nós e as palavras, o nosso dever falar", Mário de Cesariny, do poema "You are welcome to Elsinore"
Cheiras-me a colo, a meiguice, a quente. Gosto de afundar assim o meu nariz no teu peito, ouvir o teu coração que bate sempre rápido e encontrar a tua mão na minha.
O teu respirar é doce, tem tempo dentro.
A tua pele está sempre fresca, tenra, boa para eu beijar. Trinco-te a ponta dos dedos e sinto-te sorrir.
O teu olhar sei que está longe, perdido, enquanto eu não me canso de te falar. Falo por mim e por nós. Conto-te do dia de hoje, do que será amanhã, do tempo e dos outros. E tu nada, como cada vez mais sempre. Calada, sossegada, muda dentro de ti.
E a tua voz é tão minha nas poucas palavras que ousas trocar na sombra das noites.
Sei-te perto, estás sempre aqui à minha beira, sempre que te quero, que te preciso. Estás na nossa casa, na nossa vida, nos nossos dias, mas tenho medo que não estejas cá, perdida que estás nesse teu silêncio opaco e profundo.
Respondes-me sempre que «está tudo bem» às minhas insistências cada vezes mais frequentes. Ao meu medo crescente de te estar a perder para esse mundo sem palavras, sem explicações, sem sentimentos ditos. Não é preciso - respondes-me - o tanto que te quero está em tudo de mim para ti, está escancarado para fora do meu corpo, da minha boca, da minha voz.
Convenço-me por uns instantes, enleado nesse teu sorriso onde me perco uma e outra vez. Mas depois voltam estas ânsias, estes medos, esta revolta contra esse teu silêncio com que te vestes e onde me esqueço do resto do nós.
Deves-me palavras, declarações, vontades ditas, letras suspiradas. Deves-me por todas as que te digo a ti, por todas as palavras com que me esforço para encher os nossos dias, esta nossa casa tão oca e vazia, este ar carregado de ausências por tua causai, assim.
Estou emparedado na falta do que não me dizes; a respiração pesada, o peito dorido, a cabeça a estalar.
As palavras já as desencontro, a voz com vontade de se calar.
Está tudo bem, não te preocupes, só já não tenho mais nada para te contar.
Cheiras-me a colo, a meiguice, a quente. Gosto de afundar assim o meu nariz no teu peito, ouvir o teu coração que bate sempre rápido e encontrar a tua mão na minha.
O teu respirar é doce, tem tempo dentro.
A tua pele está sempre fresca, tenra, boa para eu beijar. Trinco-te a ponta dos dedos e sinto-te sorrir.
O teu olhar sei que está longe, perdido, enquanto eu não me canso de te falar. Falo por mim e por nós. Conto-te do dia de hoje, do que será amanhã, do tempo e dos outros. E tu nada, como cada vez mais sempre. Calada, sossegada, muda dentro de ti.
E a tua voz é tão minha nas poucas palavras que ousas trocar na sombra das noites.
Sei-te perto, estás sempre aqui à minha beira, sempre que te quero, que te preciso. Estás na nossa casa, na nossa vida, nos nossos dias, mas tenho medo que não estejas cá, perdida que estás nesse teu silêncio opaco e profundo.
Respondes-me sempre que «está tudo bem» às minhas insistências cada vezes mais frequentes. Ao meu medo crescente de te estar a perder para esse mundo sem palavras, sem explicações, sem sentimentos ditos. Não é preciso - respondes-me - o tanto que te quero está em tudo de mim para ti, está escancarado para fora do meu corpo, da minha boca, da minha voz.
Convenço-me por uns instantes, enleado nesse teu sorriso onde me perco uma e outra vez. Mas depois voltam estas ânsias, estes medos, esta revolta contra esse teu silêncio com que te vestes e onde me esqueço do resto do nós.
Deves-me palavras, declarações, vontades ditas, letras suspiradas. Deves-me por todas as que te digo a ti, por todas as palavras com que me esforço para encher os nossos dias, esta nossa casa tão oca e vazia, este ar carregado de ausências por tua causai, assim.
Estou emparedado na falta do que não me dizes; a respiração pesada, o peito dorido, a cabeça a estalar.
As palavras já as desencontro, a voz com vontade de se calar.
Está tudo bem, não te preocupes, só já não tenho mais nada para te contar.
domingo, 11 de dezembro de 2011
Breve
O piano pousado em pleno meio da sala. Ele sentado ao piano. Ela em cima dele. Do piano, claro está.
As horas passam devagar, com mansidão, enquanto ele corre as teclas pesadas e ela se estende na madeira preta. Perdem-se do que está lá fora e do mundo que os procura com insistência. Mas ali, assim os dois dentro da música e dentro um do outro, não querem mais do que respirar o tempo dos anos todos em que não se tocaram, não se viveram. Em que se esperavam.
Ela fecha os olhos e desenha no ar os quadros de cores fortes com que irá encher as noites em que ele estará fora a actuar. Telas e telas que se empilham pelo chão, cheias das linhas vivas com que agora enche a sua vida. Ali está ao lado dele, no centro dos seus dias, finalmente, depois de tantas vidas que correram antes de se unirem num só.
Os cabelos dele já são brancos, os dela ainda mostram sombras da ruivice que o conquistou no primeiro olhar.
Tiveram que viver outros mundos, um sempre lembrando-se do outro, ele nos palcos, nas horas de viagem, no enlace de cada mulher; ela no colo do seu homem, na correria dos dias no escritório, nas telas sombrias que pintava antes de ir dormir.
Até que um dia ela se cansou da espera, do tempo contado, correu para ele oito anos depois do primeiro olhar e disse-lhe com voz meiga: chegou o tempo de nós. Ele sorriu e nunca mais a largou.
Não podiam estar mais cheios e perfeitamente completos. Não custou a espera, não foi preciso pedi-la, nem tão pouco consenti-la. Foi assim e pronto. Foi assim que aconteceu o amor maior que agora espreito da porta do meu quarto, enquanto os meus pais se vêem como se fosse ainda a primeira vez que cruzam o olhar.
Nota: o título desta história só será verdadeiramente compreendido por aqueles que tenham algumas noções de música/solfejo..desculpem, mas teve mesmo que ser assim..
As horas passam devagar, com mansidão, enquanto ele corre as teclas pesadas e ela se estende na madeira preta. Perdem-se do que está lá fora e do mundo que os procura com insistência. Mas ali, assim os dois dentro da música e dentro um do outro, não querem mais do que respirar o tempo dos anos todos em que não se tocaram, não se viveram. Em que se esperavam.
Ela fecha os olhos e desenha no ar os quadros de cores fortes com que irá encher as noites em que ele estará fora a actuar. Telas e telas que se empilham pelo chão, cheias das linhas vivas com que agora enche a sua vida. Ali está ao lado dele, no centro dos seus dias, finalmente, depois de tantas vidas que correram antes de se unirem num só.
Os cabelos dele já são brancos, os dela ainda mostram sombras da ruivice que o conquistou no primeiro olhar.
Tiveram que viver outros mundos, um sempre lembrando-se do outro, ele nos palcos, nas horas de viagem, no enlace de cada mulher; ela no colo do seu homem, na correria dos dias no escritório, nas telas sombrias que pintava antes de ir dormir.
Até que um dia ela se cansou da espera, do tempo contado, correu para ele oito anos depois do primeiro olhar e disse-lhe com voz meiga: chegou o tempo de nós. Ele sorriu e nunca mais a largou.
Não podiam estar mais cheios e perfeitamente completos. Não custou a espera, não foi preciso pedi-la, nem tão pouco consenti-la. Foi assim e pronto. Foi assim que aconteceu o amor maior que agora espreito da porta do meu quarto, enquanto os meus pais se vêem como se fosse ainda a primeira vez que cruzam o olhar.
Nota: o título desta história só será verdadeiramente compreendido por aqueles que tenham algumas noções de música/solfejo..desculpem, mas teve mesmo que ser assim..
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
História pedida 20 !!! (por Bartolomeu): Calçada da Memória
Frase sugerida por Bartolomeu «Reflectem-se nas palmas das mãos, as linhas de um destino indistinto; por se cruzar indistintamente com outros..»
Ela chama-se Irina, nome estranho e pouco convidativo, nada afinado com o tom da voz com que nos enche as noites. Os cabelos loiros, pintados, as unhas encarnadas, esmaltadas, o rímel carregado e a saia travada, dizem pouco do que ela sempre foi e que quero acredidar que ainda é.
Procura homem há anos, mas não se deixa ir com qualquer um. A voz rouca e vivida fala-nos daquilo que Irina não nos quer contar. Senta-se no fundo do bar até chegar a sua vez de subir ao mísero palco e cantar. Ajeita a saia, passa a mão no longo cabelo. Acena com jeito para o guitarra e ali começa num soluçar que nos aperta o peito e se nos cola às mãos.
Irina canta com sentimento, com dor. Vê-la no meio do fumo é um dos raros prazeres com que me presenteio. Todas as quintas à noite, desço a calçada até este antro de tabaco e aguardente, em ânsias por ouvi-la cantar. Em ânsias por ouvi-la, não por vê-la. Quando ela lá sobe na penumbra, abre a voz e começa a cantar, fecho os olhos e oiço a Irina menina que um dia deixei no altar.
Fecho os olhos e ainda a oiço cantar-me para adormecer, o fado que escreveu para a mim «Refletem-se nas palmas das mãos, as linhas de um destino indistinto; por se cruzar indistintamente com outros...».
Hoje quando ela sobe ao palco olho as minhas palmas, enrugadas, calejadas, velhas e secas e tento lembrar-me porque me fui naquele dia, enquanto a sabia deslavada em lágrimas à minha espera, perdida para sempre da inocência e do amor. E só porque me deixei levar pelo medo, pelo medo de não ser homem para ela, nem para esta voz rouca e tão cheia que sempre pensei que a levasse até tão longe, que um dia deixaria de voltar.
Sobe agora ao palco. Já é pouco do que foi a minha Irina, ja nem saberia bem quem é, escondida que anda debaixo de tanta cor fingida. Mas aquela dor na alma e na voz fui eu quem a fiz, agora sou eu quem a vai levar cantando-a na minha voz noite e dia, cantando-a para castigar-me, com vontade de fazer o tempo voltar e ir buscá-la ao altar.
Ela chama-se Irina, nome estranho e pouco convidativo, nada afinado com o tom da voz com que nos enche as noites. Os cabelos loiros, pintados, as unhas encarnadas, esmaltadas, o rímel carregado e a saia travada, dizem pouco do que ela sempre foi e que quero acredidar que ainda é.
Procura homem há anos, mas não se deixa ir com qualquer um. A voz rouca e vivida fala-nos daquilo que Irina não nos quer contar. Senta-se no fundo do bar até chegar a sua vez de subir ao mísero palco e cantar. Ajeita a saia, passa a mão no longo cabelo. Acena com jeito para o guitarra e ali começa num soluçar que nos aperta o peito e se nos cola às mãos.
Irina canta com sentimento, com dor. Vê-la no meio do fumo é um dos raros prazeres com que me presenteio. Todas as quintas à noite, desço a calçada até este antro de tabaco e aguardente, em ânsias por ouvi-la cantar. Em ânsias por ouvi-la, não por vê-la. Quando ela lá sobe na penumbra, abre a voz e começa a cantar, fecho os olhos e oiço a Irina menina que um dia deixei no altar.
Fecho os olhos e ainda a oiço cantar-me para adormecer, o fado que escreveu para a mim «Refletem-se nas palmas das mãos, as linhas de um destino indistinto; por se cruzar indistintamente com outros...».
Hoje quando ela sobe ao palco olho as minhas palmas, enrugadas, calejadas, velhas e secas e tento lembrar-me porque me fui naquele dia, enquanto a sabia deslavada em lágrimas à minha espera, perdida para sempre da inocência e do amor. E só porque me deixei levar pelo medo, pelo medo de não ser homem para ela, nem para esta voz rouca e tão cheia que sempre pensei que a levasse até tão longe, que um dia deixaria de voltar.
Sobe agora ao palco. Já é pouco do que foi a minha Irina, ja nem saberia bem quem é, escondida que anda debaixo de tanta cor fingida. Mas aquela dor na alma e na voz fui eu quem a fiz, agora sou eu quem a vai levar cantando-a na minha voz noite e dia, cantando-a para castigar-me, com vontade de fazer o tempo voltar e ir buscá-la ao altar.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
(História «inspirada» por Pirata Vermelho): Jogo de Espelhos
Um dia hei-de contar-te uma das minhas histórias, mas hoje é mais uma das outras. Hoje é uma história tua, que afinal é minha, por seu eu quem a escreve.
Estas são as palavras que já te disse e que agora me dizes a mim, perdidos que estamos um no outro. Ou talvez seja esta a história do perdidos que estamos um do outro.
Pediste-me para te escrever porque a palavra escrita dura um para sempre infinito demais. A palavra demais é tua, não minha. Disseste que não sabes escrever, não sabes escolher as palavras, não sabes torná-las tuas, nem moldá-las ao que somos nós.
Disse-te: tudo bem, não te preocupes eu levo-te pela mão neste caminho sinuoso, letra a letra, e vou encontrando-te as palavras e cada vírgula que precisas para me escrever. Para me escrever de nós.
A carta que tenho na mão, já não sei para quem é, a quem se destina, quem procura. Afinal quem a lê? Sou eu ou tu? De quem são estas palavras que me dançam sob o olhar afundado naquilo que era para ser uma amostra, um testemunho de nós? Quem encontrou este caminho que leva a tão pouco ou quase nada, que me deixa a pensar se ainda há sobre o que escrever, o que dizer, o que dissertar?
E afinal quem me escreveu, tu ou eu?
sábado, 3 de dezembro de 2011
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Just for you
És o meu melhor amigo. O meu porto seguro. O meu colo. Uma parte de mim.
És a mão que preciso na minha, o único que sabe tudo o que sou, tudo o que fui, as marcas, as cicatrizes, as dores. E tudo o que tenho na cheiúra dos meus dias. Tudo o que me apoquenta e tudo o que me enche de sons bons. Contigo partilho os risos dos meus filhos, a ternura do que eles são em mim, os momentos mais felizes e as gargalhadas sentidas.
És o meu confidente de todos os males e de todos os remédios, a ninguém mais dou assim o tanto que para aqui vai. Nem aos que tenho mais perto, mas que estão tão longe. Podias ler-me do outro lado do mundo, de olhos fechados, sem sequer o cheiro de mim. Ainda assim irias adivinhar-me, desenhar-me em todas as linhas e contra-curvas, porque só tu me tens assim.
Conseguimos o impossível. Encontrámos o sublime.O perfeito. A ausência da necessidade de materialidade. A amizade e cumplicidade pura.
Sabias...?
És a mão que preciso na minha, o único que sabe tudo o que sou, tudo o que fui, as marcas, as cicatrizes, as dores. E tudo o que tenho na cheiúra dos meus dias. Tudo o que me apoquenta e tudo o que me enche de sons bons. Contigo partilho os risos dos meus filhos, a ternura do que eles são em mim, os momentos mais felizes e as gargalhadas sentidas.
És o meu confidente de todos os males e de todos os remédios, a ninguém mais dou assim o tanto que para aqui vai. Nem aos que tenho mais perto, mas que estão tão longe. Podias ler-me do outro lado do mundo, de olhos fechados, sem sequer o cheiro de mim. Ainda assim irias adivinhar-me, desenhar-me em todas as linhas e contra-curvas, porque só tu me tens assim.
Conseguimos o impossível. Encontrámos o sublime.O perfeito. A ausência da necessidade de materialidade. A amizade e cumplicidade pura.
Sabias...?
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Continuando
Entao? Que te aconteceu?
Nem vais acreditar..continuo com esta chatice desta gripe ou coisa similar
Bem, toca la a despachar, sabes que tens imensos pedidos a historiar.
Bem sei, vou so ali ver a febre outra vez e volto ja..
Amanha ficas bem, prometo.
Se tu dizes, eu acredito. Mesmo!
Nem vais acreditar..continuo com esta chatice desta gripe ou coisa similar
Bem, toca la a despachar, sabes que tens imensos pedidos a historiar.
Bem sei, vou so ali ver a febre outra vez e volto ja..
Amanha ficas bem, prometo.
Se tu dizes, eu acredito. Mesmo!
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
História pedida 19 (pela minha Querida Marta M., com o tema:) Pequenos Prazeres
Madalena cresceu tendo tudo entre as mãos. Andou nos melhores colégios, com os brinquedos mais caros, cavalos árabes, festas de um turbilhão de cores, empregadas para cada momento, as pérolas e as amigas de conveniência.
Agora, mulher elegante, bonita, bem cuidada e interessante, passa os dias entre o ginásio, as excursões à Avenida da Liberdade com as amigas, os palmiers da Pastelaria Restelo às cinco, os vestidos de marca, os sapatos JimmyChoo, o pecado dos croissants da Bénard nos dias de chuva.
Sente-se bem e esta vida traz-lhe um sorriso aberto a todo o instante. Apesar de às vezes lhe parecer que alguma coisa se perdeu.
No almoço de sushi na Bica, a amiga de sempre sentencia com uma gargalhada cantada: "Isto é que é viver bem.. A vida é feita destes pequenos prazeres!"
Lembrou-se do avô. O avô que é hoje um resto do que foi, uma ínfima parte do que era.
Tem saudades do avô, do Verão na Costa, das marés-vazias. Muitas, imensas. Se calhar devia dizer-lhe isso na próxima visita. Ainda que ele nem perceba, perdido que está no espaço e no tempo, perdido de si e dos seus. Tem saudades do seu sorriso à beira-mar.
Agora, mulher elegante, bonita, bem cuidada e interessante, passa os dias entre o ginásio, as excursões à Avenida da Liberdade com as amigas, os palmiers da Pastelaria Restelo às cinco, os vestidos de marca, os sapatos JimmyChoo, o pecado dos croissants da Bénard nos dias de chuva.
Sente-se bem e esta vida traz-lhe um sorriso aberto a todo o instante. Apesar de às vezes lhe parecer que alguma coisa se perdeu.
No almoço de sushi na Bica, a amiga de sempre sentencia com uma gargalhada cantada: "Isto é que é viver bem.. A vida é feita destes pequenos prazeres!"
E Madalena sorri um sorriso triste, se é que isso existe.
Lembrou-se do avô. O avô que é hoje um resto do que foi, uma ínfima parte do que era.
O Verão a sério só chegava com as duas semanas que passava com os avós paternos na Costa. O avô sempre cheio de força e energia, que a ensinava a fazer torres infinitas com a areia molhada, levava-a até às ondas mais rebeldes, ensinava-a a comer conquilhas cruas que encontravam arrastando os pés na maré-vazia. Apanhavam uma dúzia, ia tudo para o balde azul e depois sentavam-se a comê-las. Sushi à antiga.. "Sabe mesmo a mar... A isto eu chamo pequenos prazeres" e ria, coisa que era rara nele. E Madalena sorria sem perceber, mas feliz por estar ali.
Tem saudades do avô, do Verão na Costa, das marés-vazias. Muitas, imensas. Se calhar devia dizer-lhe isso na próxima visita. Ainda que ele nem perceba, perdido que está no espaço e no tempo, perdido de si e dos seus. Tem saudades do seu sorriso à beira-mar.
Acaba de decidir: na próxima vez leva-lhe um balde azul cheio, carregadinho de pequenos prazeres. Pode ser que o faça lembrar quem é a menina-mulher que ali está à sua frente. E talvez até sorrir.
sábado, 19 de novembro de 2011
( Parêntesis )
Que se passa?
Estou constipada.
Outra vez??
Pois que é que tu queres..
Mas, muito?
Tanto que só me apetece uma coisa: nada.
Por isso é que não tens escrito?
Pois, mal consigo pensar, quanto mais escrever.
Não te preocupes com isso agora.
Bem sei, mas que é que tu queres..
Deixá la, isso passa. Não tarda estás fina.
Pois, espero que sim. Que seja rápido e indolor, já agora.
Então e já viste o tempo que tem feito?
Sim. Tudo cinzento, uma canseira.
E isto da crise, ahn?
Olha, desculpa lá, já percebi que queres conversa, mas agora tenho que ir ali espirrar mais algumas cinquenta e duas vezes, sim? Volto ja.
Estou constipada.
Outra vez??
Pois que é que tu queres..
Mas, muito?
Tanto que só me apetece uma coisa: nada.
Por isso é que não tens escrito?
Pois, mal consigo pensar, quanto mais escrever.
Não te preocupes com isso agora.
Bem sei, mas que é que tu queres..
Deixá la, isso passa. Não tarda estás fina.
Pois, espero que sim. Que seja rápido e indolor, já agora.
Então e já viste o tempo que tem feito?
Sim. Tudo cinzento, uma canseira.
E isto da crise, ahn?
Olha, desculpa lá, já percebi que queres conversa, mas agora tenho que ir ali espirrar mais algumas cinquenta e duas vezes, sim? Volto ja.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
No carro
Ele para ela:
- Fazes parte da minha vida. Já não sei viver sem ti.
- Eu sei.
- Fazes-me falta, preciso tanto de ti.
- Bem sei.
- Não seria nunca capaz de voltar aos dias em que não te tinha por perto. O meu mundo já não o conheço sem ti.
- Sim, eu sei.
- Nos dias em que não te tenho na minha mão, deixo-me levar pelas saudades. Pesadas, densas, sem fim.
- Hum, hum.
- Tu não?
- Sabes bem que sim. Os dias sem ti não são dias. Nos dias sem ti não sou mais que um resto, uma sombra de mim.
- Adoro-te tanto.
O telefone dele toca.
- É a Teresa, tenho que ir. Desculpa, mas já sabes que ela fica logo desconfiada se não atendo.
- Sim, eu sei.
E ela baixou o olhar.
- Fazes parte da minha vida. Já não sei viver sem ti.
- Eu sei.
- Fazes-me falta, preciso tanto de ti.
- Bem sei.
- Não seria nunca capaz de voltar aos dias em que não te tinha por perto. O meu mundo já não o conheço sem ti.
- Sim, eu sei.
- Nos dias em que não te tenho na minha mão, deixo-me levar pelas saudades. Pesadas, densas, sem fim.
- Hum, hum.
- Tu não?
- Sabes bem que sim. Os dias sem ti não são dias. Nos dias sem ti não sou mais que um resto, uma sombra de mim.
- Adoro-te tanto.
O telefone dele toca.
- É a Teresa, tenho que ir. Desculpa, mas já sabes que ela fica logo desconfiada se não atendo.
- Sim, eu sei.
E ela baixou o olhar.
Conversa de corredor
- Espera aqui.
- Aqui, assim?
- Exactamente. Para ver se ninguém nos ouve.
- Ah, eles querem lá saber de nós!
- Isso pensas tu! Sabes que afinal aquilo sempre parece que é mesmo verdade?
- Aquilo?
- Sim, daqueles dois. Eu logo vi! Não te dizia?
- Sorte a deles.
- Como assim...? Sabes perfeitamente que são casados e não é um com o outro..
- Por isso mesmo. Sorte a deles. Pelo menos têm com que se entreter...
- Aqui, assim?
- Exactamente. Para ver se ninguém nos ouve.
- Ah, eles querem lá saber de nós!
- Isso pensas tu! Sabes que afinal aquilo sempre parece que é mesmo verdade?
- Aquilo?
- Sim, daqueles dois. Eu logo vi! Não te dizia?
- Sorte a deles.
- Como assim...? Sabes perfeitamente que são casados e não é um com o outro..
- Por isso mesmo. Sorte a deles. Pelo menos têm com que se entreter...
domingo, 13 de novembro de 2011
História pedida 18 (por Maria, «a minha camisa preta»): No Escuro
É no silêncio da casa que me ponho a pensar, a imaginar, a lembrar. Beijo os meus amores, um por um e sento-me no meu canto, no meu escuro, no meu nada, de copo na mão e a cabeça a voar. É o meu momento. Já não quero saber das horas, nem do que me espera na manhã. É quando lembro o cheiro dos amores perdidos e é quando invento o que ainda há-de vir.
É neste momento que, muitas vezes, vou até à comoda que um dia foi da minha avó. Vou ao encontro da minha camisa preta.
Embrulhei a nossa história naquela camisa. Cheira a liberdade e a amor, aos nossos corpos despidos e a todos os ais supirados. Cheira a um perfume que não é só meu.
Cheira aos tempos de desprendura e de palavras eternas. Cheira aos meus cabelos ao vento, colada a ti nos domingos de Praia Grande. Cheira ao que fomos juntos e ao que sonhávamos ser.
Cheira ao dia em que te foste em busca de uma revolução para o nosso país, para o nosso mundo. Cheira aos meus dedos na tua pele enquanto me dizias Adeus.
Cheira às memórias de ti e do eu que já fui, em tempos, longe deste tempo e desta vida.
Cheira a sonho de criança. Cheira a rituais de mulher.
Cheira a tudo o que fui e ao que acabei por não ser.
Cheira a crescer e a renascer em todos os meus silêncios. Cheira a história de mim.
Cheira aos tempos de desprendura e de palavras eternas. Cheira aos meus cabelos ao vento, colada a ti nos domingos de Praia Grande. Cheira ao que fomos juntos e ao que sonhávamos ser.
Cheira ao dia em que te foste em busca de uma revolução para o nosso país, para o nosso mundo. Cheira aos meus dedos na tua pele enquanto me dizias Adeus.
Cheira às memórias de ti e do eu que já fui, em tempos, longe deste tempo e desta vida.
Cheira a sonho de criança. Cheira a rituais de mulher.
Cheira a tudo o que fui e ao que acabei por não ser.
Cheira a crescer e a renascer em todos os meus silêncios. Cheira a história de mim.
Esta camisa tem nos fios histórias que só eu sei e vai ser para sempre assim.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
História pedida 17 (por Olinda Melo, tema Perto de Casa)
Anda aqui para perto de casa, para perto de mim. Anda para aqui onde o céu é mais azul, as àrvores mais altas e os rios correm devagar. Anda comigo, com os pés na minha sombra, enquanto te demoras num olhar. Salta neste arrepio sem fim, comigo, enquanto te abraço e te digo que te quero tanto assim.
Deixa-me beijar-te a longa trança, deixa-me enrolar-te num novelo sem fim. Suspiro na encosta do teu peito e vejo-te a desvaneceres levemente em mim. Cantei-te todas as danças, torneei-te em todas as noites. Sem ti desencontrei-me do resto e esqueci-me do que havia em mim. Mas se estivermos por aqui, perto deste nosso sítio perfeito, onde te embalei em todas as artes de mim, onde os nossos filhos se fizeram e cresceram, se estivermos por aqui, consigo sossegar e parar o medo que cresce daninho em mim.
Sabes que sem a tua quentura à minha beira deixo de ser eu, já nem sei que sou. Sabes que é entre as paredes da nossa casa que consigo finalmente respirar? Lentamente, devagar.
Pois então ata-me aqui à nossa casa, ao nosso mundo, a ti, prende-me para eu não ir. Não quero perder-me como das outras vezes, confundido com um cheiro a ti que não o teu, atrás de um passo bamboleante que não o teu, perdido em alguém que não és tu. Por isso fica aqui comigo, pertinho de casa, de nós, da vida que levamos, para não me deixar levar uma outra vez pelo que me acena ali na esquina, por umas pestanas demoradas, por um gesto que não o teu.
Sou fraco, bem sabes, e hoje quando saíste para um dos teus sítios, esqueceste-te de trancar a porta e eu senti-me sozinho, lembrei-me de sair, de arejar, e ela lá estava ao fundo da estrada que corri, chamou-me, apertou-me - estava tão longe de casa, de ti - e lá deixei eu ir-me outra vez, perdido de ti, de mim, de nós.
Isto tudo para te pedir: não voltes a sair, não vás para longe, fica sempre aqui pertinho de casa, das nossas árvores, do céu tão azul, do rio que hoje está a correr tão devagar. Minha querida, só mais desta vez, prometo, deixas-me ficar?
domingo, 6 de novembro de 2011
História pedida 16 (por Anónimo, sobre Fogo de artifício) O Tempo de Nós
Veste a camisa verde de que tanto gosto. Sim, essa. Lembras-te que era a que tinhas vestida daquela última vez que vimos os fogos lá no alto? Sim, os fogos lá na festa da aldeia, que giravam sobre a nossa cabeça e nos rebentavam nos ouvidos. Sim, sei que não rebentam nos ouvidos, mas era o que parecia, que estavam mesmo dentro de mim, o coração apressava-se e as minhas mãos à volta de ti.
Sim, sei que é fogo de artifício que se diz - que agora dizes-, mas sabes que cresci a ouvir falar do mês de Agosto dos fogos, das festas, do regresso dos que se foram para França, das noites sem fim a bailar com a concertina.
Não te lembras tu? Tenho saudades desses tempos, de quem nós eramos, de como eu era sempre a primeira que tiravas para dançar e as outras a morderem-se, porque era a mim que querias. Acabávamos a noite, eu toda embrulhada nessa camisa verde, tu de camiseta a tentares acertar com as pedras redondas no branco da lua que enfeitava o rio.
Foi antes de virmos aqui para a cidade, onde o mundo corre mais rápido, a vida desaparece-nos entre os ponteiros do relógio e perdemo-nos de nós nesta casa onde nunca deu para ver os fogos no Verão.
A ver se é desta que voltamos à terra em Agosto. Já sei, já sei que nunca queres deixar a loja, que não te apetece voltar àquela gente, nem às lembranças da tua amostra de vida por lá, que cresceste no meio da podridão e das sapatadas do teu pai, mas não te lembras? Nao te lembras de como esqueciamos tudo nas noites de festa, os fogos lá no alto, a música dentro de nós, eu a apertar-me contra ti a pedir à primeira estrela a eternidade para aquele momento?
Ali eramos só nós e o cheiro a eucalipto, o sorriso vinha cá de dentro bem fundo e o tempo durava todos os segundos que queríamos. Anda cá, deixa-me ao menos apertar-te, aposto que a tua camisa verde ainda cheira a eucalipto e a Verão.
Sim, sei que é fogo de artifício que se diz - que agora dizes-, mas sabes que cresci a ouvir falar do mês de Agosto dos fogos, das festas, do regresso dos que se foram para França, das noites sem fim a bailar com a concertina.
Não te lembras tu? Tenho saudades desses tempos, de quem nós eramos, de como eu era sempre a primeira que tiravas para dançar e as outras a morderem-se, porque era a mim que querias. Acabávamos a noite, eu toda embrulhada nessa camisa verde, tu de camiseta a tentares acertar com as pedras redondas no branco da lua que enfeitava o rio.
Foi antes de virmos aqui para a cidade, onde o mundo corre mais rápido, a vida desaparece-nos entre os ponteiros do relógio e perdemo-nos de nós nesta casa onde nunca deu para ver os fogos no Verão.
A ver se é desta que voltamos à terra em Agosto. Já sei, já sei que nunca queres deixar a loja, que não te apetece voltar àquela gente, nem às lembranças da tua amostra de vida por lá, que cresceste no meio da podridão e das sapatadas do teu pai, mas não te lembras? Nao te lembras de como esqueciamos tudo nas noites de festa, os fogos lá no alto, a música dentro de nós, eu a apertar-me contra ti a pedir à primeira estrela a eternidade para aquele momento?
Ali eramos só nós e o cheiro a eucalipto, o sorriso vinha cá de dentro bem fundo e o tempo durava todos os segundos que queríamos. Anda cá, deixa-me ao menos apertar-te, aposto que a tua camisa verde ainda cheira a eucalipto e a Verão.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Tempos de Crise
Aqui chove muito. Chove muito, muito, muito. Chove tanto que até nos esquecemos da côr do sol. E da secura do seu calor.
Chove tanto que o chão está sempre numa lama amarelada, o cabelo num emaranhado, a roupa mole de tanta humidade. A pele sempre branca e os lençóis a cheirarem a molhado.
Os animais também estão diferentes, sempre escuros e ensopados. As crianças correm atrás dos cães de pêlo colado, fogem dos cavalos enlameados.
É uma chuva que só vendo, porque miudinha, miudinha, quase que nem se vê e aquelas nuvens pesadas cinzentas não nos deixam perceber o tudo que aí vem. Provavelmente mais chuva para os nossos dias, o sol mais longe, um cheiro a bafio que se entranha no fundo de tudo.
E nós lá vamos levando a nossa vidinha assim, dentro de nós, vivendo pouco, lembrando muito dos dias de sol, do calor na cara e das crianças a chapinharem no tanque.
Aqui chove muito, muito, muito, mas em tempos não era assim.
Sabemos levar isto, sabemos viver com o novo tom pardo das coisas e até conseguimos rir levezinho de tudo o que mudou.
À noite, antes de deitar, olhamos para o céu sempre carregado, na esperança de uma pequenina nesga, um prenúncio de um dia melhor. Ainda sorrimos o sorriso mais triste, quando nem uma estrela se adivinha.
Com a cabeça na almofada lembramos os dias de puro sol que já tivemos e adormecemos na certeza que o melhor ainda há de vir.
Chove tanto que o chão está sempre numa lama amarelada, o cabelo num emaranhado, a roupa mole de tanta humidade. A pele sempre branca e os lençóis a cheirarem a molhado.
Os animais também estão diferentes, sempre escuros e ensopados. As crianças correm atrás dos cães de pêlo colado, fogem dos cavalos enlameados.
É uma chuva que só vendo, porque miudinha, miudinha, quase que nem se vê e aquelas nuvens pesadas cinzentas não nos deixam perceber o tudo que aí vem. Provavelmente mais chuva para os nossos dias, o sol mais longe, um cheiro a bafio que se entranha no fundo de tudo.
E nós lá vamos levando a nossa vidinha assim, dentro de nós, vivendo pouco, lembrando muito dos dias de sol, do calor na cara e das crianças a chapinharem no tanque.
Aqui chove muito, muito, muito, mas em tempos não era assim.
Sabemos levar isto, sabemos viver com o novo tom pardo das coisas e até conseguimos rir levezinho de tudo o que mudou.
À noite, antes de deitar, olhamos para o céu sempre carregado, na esperança de uma pequenina nesga, um prenúncio de um dia melhor. Ainda sorrimos o sorriso mais triste, quando nem uma estrela se adivinha.
Com a cabeça na almofada lembramos os dias de puro sol que já tivemos e adormecemos na certeza que o melhor ainda há de vir.
What a mess
Ás vezes fico na dúvida se é de mim que gostas, ou se é da ideia de mim. A sério que fico sem saber se gostas da pessoa que sou, do eu que sou, ou se é apenas do conceito do nós em ti e para ti.
Talvez se eu fosse outra que não eu e tivesses este nós também com ela, talvez fosse igual para ti e tivesses a mesma ânsia dela que tens de mim.
Quando dizes que não me queres perder, penso eu logo «nao é a mim, é a nós». Porque agora que abraçámos o nós, o deixámos crescer e corremos todos os riscos, agora é agarrá-lo o mais que pudermos. Pensas tu. Acho eu que pensas assim. Mas eu não.
Se tiver que perder o nós, perco. Se tiveres que desaparecer, desaparece o nós e não é igual se aparecer um outro tu qualquer. Porque não é da ideia de ti que gosto, não é da ideia de nós. Aliás, o conceito do nós é o que menos me apetece, o que mais me sufoca e me deixa a cabeça a tremer.
É de ti que eu gosto, de ti, e é só por isso que há um nós.
Será que me consegues perceber?
domingo, 30 de outubro de 2011
Conversa de amigos
- Fugiu-me da mão e quando tentei apanhá-la já ia longe.
- Tens a certeza que foi assim?
- Então, se te estou a dizer... Bem que a chamei, gritei, implorei até.. E ela nada. Já não queria saber de mim, já ia com o vento, já se desprendia na chuva.
- Então e agora?
- Tens a certeza que foi assim?
- Então, se te estou a dizer... Bem que a chamei, gritei, implorei até.. E ela nada. Já não queria saber de mim, já ia com o vento, já se desprendia na chuva.
- Então e agora?
- Agora sei lá eu que vai ser de mim, assim, sem amparo nem razão, assim tolhido e perdido nas madrugadas, assim sem a mão dela na minha ao adormecer.
- Mas sabes porque é que ela se te desapareceu?
- Mas sabes porque é que ela se te desapareceu?
- Vá-se lá saber, ela também sempre foi um bocadinho assim, de inconstâncias e desaparecimentos. Mas é que desta vez foi pior, desta vez não volta, desta vez ja não a vejo mais. Nunca mais.
- E para onde será que ela se foi?
- Ai isso sei eu bem, isso eu sei das tantas vezes que me avisou, no meio daquela inundação toda de lágrimas, cada vez que nos perdíamos no meio do meio dos nossos dias, quando já nem nos conhecíamos, sabes? Ela bem me avisou que um dia se ia, que um dia me esquecia e que se ia nascer do princípio, à beira da vida dos outros que sabem o que é isso de ser feliz.
- Mas onde é isso exactamente?
- Ai, aí já não te sei responder. Nunca conheci ninguém que seja mais feliz do que eu sou sempre e cada uma das vezes que a minha mão toca a dela.
- E para onde será que ela se foi?
- Ai isso sei eu bem, isso eu sei das tantas vezes que me avisou, no meio daquela inundação toda de lágrimas, cada vez que nos perdíamos no meio do meio dos nossos dias, quando já nem nos conhecíamos, sabes? Ela bem me avisou que um dia se ia, que um dia me esquecia e que se ia nascer do princípio, à beira da vida dos outros que sabem o que é isso de ser feliz.
- Mas onde é isso exactamente?
- Ai, aí já não te sei responder. Nunca conheci ninguém que seja mais feliz do que eu sou sempre e cada uma das vezes que a minha mão toca a dela.
sábado, 29 de outubro de 2011
Arrumador-a-Dias
A príncípio olhava-o com desconfiança e dava mais três voltas se preciso fosse, só para não ter que parar o carro nos seus domínios. Incomodava-me o «conceito», incomodava-me a persistência do «ó vizinha não quer um lugarzinho?», incomodava-me o ar escanzelado, a barba por fazer, a roupa de côr indefinida, o olhar sombrio. O cheiro a tinto. E este incómodo tem um só nome: preconceito.
Em desespero de causa, por algumas vezes lá cedi a ficar no «lugarzinho» e atirar uma moeda com medo de tocar-lhe. Sim, porque isto vá lá saber-se que doenças, que bichezas e que caminhos já andaram por aquelas mãos.
Mas então, e não me perguntem porquê porque não faço a mais ínfima das ideias, lá comecei a dar por mim todos os dias a recorrer aos prestáveis, incansáveis e indispensáveis serviços do Xico, que é afinal quem manda na rua do hospital. Todos lhe falam, todos o cumprimentam. Há inclusivamente quem lhe deixe as chaves do carro o dia inteiro e ele lá vai fazendo perfeitos malabarismos circenses, em ruas impossíveis e com a polícia à espreita.
Ultimamente saía-se sempre com esta: «Ó Dótora, pode deixar aqui sossegadinha que Eles hoje não vêm cá, garanto-lhe.» Páro para pensar quem serão os Eles a que se refere com tanta solenidade e lembro-me dos senhores da Emel que de há uns meses para cá se entretêm a multar todo e qualquer menos avisado prevaricador. E respondo-lhe «Tem a certeza? Não me apetece nada mais uma multa..» «Ó Dótora, no dia em que não acreditar na minha palavra, deixa de olhar-me na cara». Sorrio, sem saber bem como reagir a tal sentença. E confio.
No outro dia chovia um perfeito dilúvio. O Xico lá me arranjou lugar. Baixei a janela, dei-lhe a prestação do dia e ele lá se foi sorridente debaixo do chapéu de chuva. E eu ali enfiada no carro, vidros embaciados, à espera que a chuva amainasse porque não há um chapéu que resista nas minhas mãos - sou o perfeito triângulo das bermudas das sombrinhas. Como já estava atrasada, decidi aventurar-me, encolhida em mim mesma, colada às paredes. E lá aparece o Xico, todo solícito: «O Dótora, mas então porque é que não me pediu boleia? Eu estava ali a a pensar, Mas então a criatura não sai do carro?, palavra de honra que estava - ai, desculpe, a Dótora criatura - mas para quê isso Dótora, então a gente não estamos aqui uns para os outros? Ora essa».
E eu sorrio, contente porque ainda há cavalheiros.
Os porteiros do hospital olham irónicos para nós e comentam «Este sabe-a toda». E sabe mesmo.
Até dá pena vê-lo desperdiçado em tão mísero míster. Um dia demorei-me com ele. A minha mão lavada de preconceitos, apertou a sua. «Xico, porque andas nesta vida? O que se passa? Deixa-me ajudar-te». O sorriso dele fechou-se. «Ó Dótora deixe-se disso, não se atrase mas é» Eu insistindo, «Xico, pode ser que te consiga ajudar, conta-me a tua história». «A minha história é só minha» atirou-me de olhar cerrado, enquanto me voltava as costas.
Nos dias seguintes deixei de o ver. Já voltou há mais de um mês. Nunca mais me arranjou lugar e ainda ontem cheguei toda encharcada ao 5ºandar.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
História pedida 15 (por a Matéria dos Livros, filme de Joaquin Cortes): Dancing Days
O passo ritmado no palco. O som oco e fundo da madeira. Tum, tum tum. Seco, firme, preciso. O meu corpo no teu corpo. Escorregamos um no outro. Não: deslizamos. A música somos nós; a dança, o nosso respirar. Tum, tum tum. A tua mão na minha cintura; puxas-me para ti e eu entrego-me sem pedir mais nada.
A minha mão ampara o teu cabelo negro. Molhado. Colamo-nos, as minhas costas no teu peito, as minhas curvas nas tuas. E deslizamos batendo com força no chão. Tum, tum tum. A tua boca no canto do meu pescoço, a minha mão que cai no teu ombro.
Não respiro, não respiras. Tudo isto num só folego. Tum, tum tum.
A música pára, mas nós não. Ainda encaixados e num suspiro, guias-me para trás do palco. Não queres saber dos aplausos, nem dos encores. Finalmente tens-me tua e és só meu. O teu peito nu encontra a minha boca desgovernada. Os folhos vermelhos da minha saia sobem até ao decote, enquanto me enrolas uma perna em ti. Em cena, fora de cena. Os teus olhos dentro de mim. As guitarras recomeçam, esperam por nós. Perdemo-nos um no outro, sem um Ai. O palco espera-nos, eis-nos de volta. Molhados, cansados, consolados.
Antes a tua dança era dorida. Séria. Crispada. A pedir mais da vida. Agora que me encontraste dançamos assim. Só para nós, só a sentir. Sem querer saber se temos palco ou não. O teu olhar já não está cerrado. O teu olhar agora perde-se na música do meu ventre. O teu corpo na dança do meu. Só quero ficar para sempre assim. A dançar apaixonada e tu de sorriso pendurado em mim.
A música pára, mas nós não. Ainda encaixados e num suspiro, guias-me para trás do palco. Não queres saber dos aplausos, nem dos encores. Finalmente tens-me tua e és só meu. O teu peito nu encontra a minha boca desgovernada. Os folhos vermelhos da minha saia sobem até ao decote, enquanto me enrolas uma perna em ti. Em cena, fora de cena. Os teus olhos dentro de mim. As guitarras recomeçam, esperam por nós. Perdemo-nos um no outro, sem um Ai. O palco espera-nos, eis-nos de volta. Molhados, cansados, consolados.
Antes a tua dança era dorida. Séria. Crispada. A pedir mais da vida. Agora que me encontraste dançamos assim. Só para nós, só a sentir. Sem querer saber se temos palco ou não. O teu olhar já não está cerrado. O teu olhar agora perde-se na música do meu ventre. O teu corpo na dança do meu. Só quero ficar para sempre assim. A dançar apaixonada e tu de sorriso pendurado em mim.
sábado, 22 de outubro de 2011
Canção de embalar
O meu mundo é pequenino.
Tem mãos pequeninas, pés pequeninos e dentinhos pequeninos. Mas tem os sorrisos e as gargalhadas maiores do mundo. Do mundo dos crescidos, quero eu dizer.
O meu mundo é doce e quente. É como o colo mais querido, a casa mais desejada.
O meu mundo gira à minha volta noite e dia, dia e noite e todos os dias me diz o quanto gosta de mim. Mesmo sem precisar de palavras.
O meu mundo é mágico. Dá-me forças desconhecidas, enche-me de alegria nos dias mais tristes. Faz de mim o que não sabia ser e encontra-me sempre que me descubro perdida.
O meu mundo são os meus meninos, que me olham numa transparência sem fim, que me agarram a mão a sorrir, que me levam ao princípio de mim.
O meu mundo é grande, é enorme, nele cabe tudo o que há de bom.
Estão a ouvir a música que o meu mundo tem? Sou eu com os meus meninos a cantar alto e bom som.
O meu mundo é infinitamente feliz. O meu mundo é meu.
Podem espreitar um bocadinho, gostamos de visitas inesperadas. Mas depois encostem a porta devagarinho e deixem-na bem fechada, porque o meu mundo é precioso, não quero que se perca nada de nada.
Tem mãos pequeninas, pés pequeninos e dentinhos pequeninos. Mas tem os sorrisos e as gargalhadas maiores do mundo. Do mundo dos crescidos, quero eu dizer.
O meu mundo é doce e quente. É como o colo mais querido, a casa mais desejada.
O meu mundo gira à minha volta noite e dia, dia e noite e todos os dias me diz o quanto gosta de mim. Mesmo sem precisar de palavras.
O meu mundo é mágico. Dá-me forças desconhecidas, enche-me de alegria nos dias mais tristes. Faz de mim o que não sabia ser e encontra-me sempre que me descubro perdida.
O meu mundo são os meus meninos, que me olham numa transparência sem fim, que me agarram a mão a sorrir, que me levam ao princípio de mim.
O meu mundo é grande, é enorme, nele cabe tudo o que há de bom.
Estão a ouvir a música que o meu mundo tem? Sou eu com os meus meninos a cantar alto e bom som.
O meu mundo é infinitamente feliz. O meu mundo é meu.
Podem espreitar um bocadinho, gostamos de visitas inesperadas. Mas depois encostem a porta devagarinho e deixem-na bem fechada, porque o meu mundo é precioso, não quero que se perca nada de nada.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Quatorze anos
Á porta da minha escola havias tu. Chegavas, sentavas-te no lancil, puxavas um cigarro e ali ficavas. Parado. Quieto. Mudo.
O cabelo preto todo puxado para trás num arrepio gelatinoso. As mangas a roçarem os bicos dos teus joelhos que espreitavam nas calças coçadas. Um assobio entre as mãos para as meninas que passavam. E as tontas que apressavam o passo com medo do que se poderia seguir. E tu na tua.
O tempo passava e não arredavas pé. Apareciam os das motas, os dos carros, os do liceu de baixo e até alguns pais que insistiam em ir buscar os filhos envergonhados. E tu ali, de cigarro entre os dentes, de assobio entre as mãos.
Nós raparigas não sabiamos bem o que pensar de ti. Inventávamos-te histórias dramáticas, romances novelescos, crimes impunes.
Mas tu esperavas a Professora Lúcia, que, sempre que passava, baixava o olhar para não te encontrar. Apaixonaste-te pelos seus grandes olhos dourados e pernas intermináveis. Acabaras o liceu no ano anterior, depois de vários anos em repetição - quer fosse por não teres que fazer na vida, quer fosse para demorares-te na contemplação da Professora.
Isto contaste-me tu naquele primeiro dia em que ganhei coragem, sentei-me apertando a saia entre os joelhos e te fiz todas as perguntas. E em que surpreendentemente me respondeste. Não sou mais que uma miúda ao teu lado, mas a tua mão agarrou a minha quando te procurei entre os cigarros.
Ás vezes na correria dos nossos corpos nus na cama da minha mãe, oiço-te a chamares-me Lucia. Mas eu não me importo. Acho que um dia gostava de ser professora também.
O cabelo preto todo puxado para trás num arrepio gelatinoso. As mangas a roçarem os bicos dos teus joelhos que espreitavam nas calças coçadas. Um assobio entre as mãos para as meninas que passavam. E as tontas que apressavam o passo com medo do que se poderia seguir. E tu na tua.
O tempo passava e não arredavas pé. Apareciam os das motas, os dos carros, os do liceu de baixo e até alguns pais que insistiam em ir buscar os filhos envergonhados. E tu ali, de cigarro entre os dentes, de assobio entre as mãos.
Nós raparigas não sabiamos bem o que pensar de ti. Inventávamos-te histórias dramáticas, romances novelescos, crimes impunes.
Mas tu esperavas a Professora Lúcia, que, sempre que passava, baixava o olhar para não te encontrar. Apaixonaste-te pelos seus grandes olhos dourados e pernas intermináveis. Acabaras o liceu no ano anterior, depois de vários anos em repetição - quer fosse por não teres que fazer na vida, quer fosse para demorares-te na contemplação da Professora.
Isto contaste-me tu naquele primeiro dia em que ganhei coragem, sentei-me apertando a saia entre os joelhos e te fiz todas as perguntas. E em que surpreendentemente me respondeste. Não sou mais que uma miúda ao teu lado, mas a tua mão agarrou a minha quando te procurei entre os cigarros.
Ás vezes na correria dos nossos corpos nus na cama da minha mãe, oiço-te a chamares-me Lucia. Mas eu não me importo. Acho que um dia gostava de ser professora também.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Um dia
Corres o meu corpo, fechas-te em mim.
Abres as mãos, digo-te Ai..
O calor que guardavas, já não sei por onde vai.
És rio, és cor, és o inteiro que há em mim.
És as palavras que acabaram, as que se quedaram a meus pés
Letra a letra desnudadas, trazidas no fim do que sou.
Agora sei-te aqui, agora sei-te meu.
Larga o lençol lá fora, estende-o à janela
Deita-te em mim de manso, leva-me para perto do que és.
Sigo-te de longe, visto-me ao espelho
Despida do que fomos, voltando ao que era.
Insinuo-te a mão, encostada à ponta de ti
Solta da vida que me escreveste, encontro-te em tudo o que ja és.
Um dia vou ter-te só meu, um dia vais ser assim
Pensamento desencontrado, vendaval que nasceste em mim.
Adeus
Tocas a beira do palco. Do teu palco.
Debruçada em ti, vês aquilo que és.
Sonhas alto, voas mais longe, queres o tanto que ainda adivinhas para o teu mundo.
A mão estendida aos céus, a ponta do pé que roça o chão, a delicadeza de um momento que é só teu.
O sorriso que trazes ao peito, ao colo, preso para sempre em ti. De ti.
Boneca que já foste, ainda és em tudo o que cá deixas de teu.
Descansa agora doce bailarina, ouve a tua música de embalar...
O palco está lindo e pronto, está na hora de brilhar.
Para a Inês
sábado, 15 de outubro de 2011
História pedida 14 (por Tita e Maria: Profiterole e La Bohéme de Charles Aznavour)
O friso dourado da cadeira condizia com o friso dourado do balcão, que por sua vez levava até ao friso dourado da ombreira da porta, que levava então ao dourado do letreiro onde se podia ler, alto e bom som, «Chez Flô».
Todas as últimas quintas-feiras do mês reuniam-se ali a contar das semanas que passaram. O grupo das professoras reformadas animava a sala tantas vezes vazia. O restaurante da Floripes – perdão, da Flô, como insistia que lhe chamassem – estava cada vez mais vazio e nem os seus afamados profiteroles garantiam a clientela de outros tempos.
As quatro professoras agora já grisalhas, gastavam ali sempre umas boas duas horas a esquecerem o tempo que passara e a encher o Chez Flô de gargalhadas roucas e sinceras – excepto a da Professora Isabel, que tinha uma gargalhada asmática que se ouvia num silvo, enquanto se tornava roxa de tão branca que sempre fora. Floripes deliciava-se a ouvir os detalhes que ritualigiosamente enchiam a conversa cronometrada. Porque todas continuavam com muito que fazer, sem tempo para nada, ou pelo menos assim o anunciavam. A Professora Ilda, alentejana de gema, de sotaque cerradíssismo apesar da vida inteira que vivera ali em Setúbal, trazia sempre um novo episódio. Até a Professora Ana Luísa, de ar seco e sisudo com o seu cabelo curto e másculas camisas de flanela, se agarrava ao braço da roliça Professora Luzia, já não aguentando de tanto rir.
A Professora Ilda hoje chegava de ar esbaforido, acabada de chegar de Beja: Querem lá saber migas, vim direitinha do mê médico lá em Bêja para vir ter com vocemessês e nã é que venho muito mais aliviada? Falei-lhe daqueles aflições que se me dão, aquele sobressalto que me dá de baixo para cima e que parece que me vai sair pela cabeça fora e atão nã é que ele me disse que isto nã é nada, que é mas é um pêdo que nã sabe se há-de sair por baixo, se por cima..? Já viram que até os pêdos têm destas indecisões...?» E o Chez Flô num fartote de rir.
Floripes sorria atrás do balcão. Gostava daquela irmandade. Faltava-lhe uma cumplicidade assim, alguém a quem contar de si. Um dia haveria de contar-lhes da sua história. De quando, na verdura dos vinte, foi ao encontro da querida prima Margot em Paris, irmã de sonhos e promessas. Contar de como se perdeu de amor pelo Philippe, pintor imberbe, que durante aquele Verão ganhava os francos para o café a pintá-la desnuda e desprendida nas promessas de uma vida a dois nas margens do Sena. Vida essa que se despencou no dia em que la douce Flô, como Philippe a havia re-baptizado, o descobriu a vender quadros que mostravam uma nudez que não a sua. Arrumou as malas e rumou a Setúbal. Só chegando escreveu uma longa carta desbotada para a sua soeur Margot a explicar que afinal a sua vida seria à beira do Sado.
No rádio que enchia o restaurante de música francesa dos anos 60 e 70, passava agora a música «La bohéme». Sorriu um sorriso triste enquanto se decidiu a acabar com o ultimo profiterole. Afinal a vergonha já a perdera há muito. Precisamente na primeira vez em que se despiu para um desconhecido na noite dourada de Paris.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Conversa de comadres
«Anda lá, deixa-te de coisas.»
«De coisas?»
«Sim, deixa-te de pieguices, mariquices, comichosices e outras "ices" que tal.»
«Mas porquê, se é assim que eu sou?»
«Porque não te fica bem, faz-te velha, seca, sisuda. Consumida. Olha lá que já nem tens barriga... e a barriga que é uma coisa que enfeita tanto!»
«Mas isso é porque perdi a fome. Perdi a vontade. Já não tenho vontade de mais nada desde que ele se foi.»
«E então? Foi-se, já se sabe e já estava mais que visto. Só tu é que não querias ver, mulher. Há que tempos que ele já estava mais para lá do que para cá.»
«Para o lado da outra, queres tu dizer.»
«Pois, isso mesmo, vês como tu sabes? Vá, anda, arranja-te, enfia um camiseiro daqueles teus todos afiladinhos, de botãozinho dourado rebrilhante e a golinha certinha, que te fica bem e até disfarça essa magreza toda. Credo mulher, que pareces um cão com fome.»
«Cadela, neste caso»
«Pois, está claro. Mas cadela é a outra que te levou o homem para parte incerta, ao fim destes anos todos. Ai o que tu aturaste mulher, só Deus sabe. E eu também sei, que isto ouve-se tudo por estas paredes fininhas. E tu tudo ouvias e calavas, porque te lembravas do que prometeste há bem mais de 30 anos lá à frente do Senhor Prior, que Deus o tenha, só porque era suposto, só porque devias e aquele bruto que te falava mal de dia e de noite, a sopa que estava sempre sem sal, as camisas mal passadas, raios partam o raio do homem que nunca estava satisfeito e tu toda "sim,querido", "está bem meu amor" e ele sempre pronto para te amarrotar, torcer e tu toda doçuras e meiguices porque era o teu homem e nós até fomos educadas assim. E agora, ao fim destes anos todos, troca-te por uma dessas serigaitas brasileiras que desaguaram aqui e por todo o lado e agora que estás velha e seca, agora que ninguém te vai querer, credo mulher é que nem uma barriguinha já tens para amostra, agora vais tu ficar sozinha nesta casa grande demais para ti, silenciosa demais e tu aqui sem ninguém para te encher os dias a queixar-se do raio da sopa nem das camisas.
Olha, sabes que mais, vamos mas é ficar aqui sentadas um bocadinho, que agora de repente fiquei sem vontade de nada. Se calhar foi a feijoada do almoço que me caiu mal».
«De coisas?»
«Sim, deixa-te de pieguices, mariquices, comichosices e outras "ices" que tal.»
«Mas porquê, se é assim que eu sou?»
«Porque não te fica bem, faz-te velha, seca, sisuda. Consumida. Olha lá que já nem tens barriga... e a barriga que é uma coisa que enfeita tanto!»
«Mas isso é porque perdi a fome. Perdi a vontade. Já não tenho vontade de mais nada desde que ele se foi.»
«E então? Foi-se, já se sabe e já estava mais que visto. Só tu é que não querias ver, mulher. Há que tempos que ele já estava mais para lá do que para cá.»
«Para o lado da outra, queres tu dizer.»
«Pois, isso mesmo, vês como tu sabes? Vá, anda, arranja-te, enfia um camiseiro daqueles teus todos afiladinhos, de botãozinho dourado rebrilhante e a golinha certinha, que te fica bem e até disfarça essa magreza toda. Credo mulher, que pareces um cão com fome.»
«Cadela, neste caso»
«Pois, está claro. Mas cadela é a outra que te levou o homem para parte incerta, ao fim destes anos todos. Ai o que tu aturaste mulher, só Deus sabe. E eu também sei, que isto ouve-se tudo por estas paredes fininhas. E tu tudo ouvias e calavas, porque te lembravas do que prometeste há bem mais de 30 anos lá à frente do Senhor Prior, que Deus o tenha, só porque era suposto, só porque devias e aquele bruto que te falava mal de dia e de noite, a sopa que estava sempre sem sal, as camisas mal passadas, raios partam o raio do homem que nunca estava satisfeito e tu toda "sim,querido", "está bem meu amor" e ele sempre pronto para te amarrotar, torcer e tu toda doçuras e meiguices porque era o teu homem e nós até fomos educadas assim. E agora, ao fim destes anos todos, troca-te por uma dessas serigaitas brasileiras que desaguaram aqui e por todo o lado e agora que estás velha e seca, agora que ninguém te vai querer, credo mulher é que nem uma barriguinha já tens para amostra, agora vais tu ficar sozinha nesta casa grande demais para ti, silenciosa demais e tu aqui sem ninguém para te encher os dias a queixar-se do raio da sopa nem das camisas.
Olha, sabes que mais, vamos mas é ficar aqui sentadas um bocadinho, que agora de repente fiquei sem vontade de nada. Se calhar foi a feijoada do almoço que me caiu mal».
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Retouner à Dinard
C’est la mer qui m'a changé. C'était le bleu qui m'avait tué.
Les vagues qui se retrouvent sur le sable gris sont des mots que tu m'as dit.
Viens ici, tu m'as dit, ne m'oublies pas, je t'ai répondu. Et nous avons fait la dance la plus belle, la musique parfaite, les rêves les plus purs.
Un jour tu sauras qui c'était toi ma vie. Je t’attendais dans nos mots, nos rencontres, nos lettres. Nos vies qu'on a vécues.
Pour te retrouver ici, à notre plage, le sable mouillée sous nos pieds et toi en disant «viens ici mon amour». «Finalement» je t'ai répondue et maintenant tu peux pas me oublier, ni un jour, ni un moment.
Parce que je suis à toi depuis les jours qui tu as oubliés… mais toi, tu seras finalement à moi aujourd'hui et tous les jours que les vagues touchent notre sable gris.
sábado, 8 de outubro de 2011
Inês
Hoje sou eu a escrever. Eu, mas mesmo Eu. Não que em todas as histórias não exista sempre um bocadinho de Eu. Mas esta vou ser eu do princípio ao fim. Esta não é uma história de nós. Esta é uma história minha.
Começo pelo fim. A Inês entrou ontem em coma, no decorrer de uma cirurgia que correu mal. Muito mal.
Começo pelo fim. A Inês entrou ontem em coma, no decorrer de uma cirurgia que correu mal. Muito mal.
Teve a primeira filha há 5 meses. Tem um feitio que não tem nada de fácil. Sempre gostou de dar espectáculo, da ribalta, de dar que falar. Tem uma escola de dança porque o que mais gosta de fazer é dançar. Principalmente com o seu amor, pai da sua filha, parceiro em tudo. Não o conheço. Mas a ela, sim.
Depois de nos termos cruzado em crianças no mesmo colégio, reencontrámo-nos adolescentes no liceu. Ambas acabadinhas de chegar e sem conhecer ninguém. E assim nos tornámos melhores amigas. Com o tempo formámos um grupo de cinco raparigas inseparáveis. Cada uma mais diferente da outra. Nunca percebi como aconteceu, nem como durou três anos. Os anos em que nos tornámos mulheres. Baptizámo-nos com pseudónimos bem característicos da piroseira da adolescência. E com fundamentos que na altura nos pareciam bem racionais. Hoje parecem uma grande tolice. A Flor, a nossa doce e sensivel, a Estrela que ora brilhava radiosa, ora se entristecia e apagava, a Inês a Lua, porque nunca lhe conheciamos bem todas as faces e eu a Sol. A que falta é a que nos nomeou e nunca conseguimos arranjar outro nome que não AnaSus. Pelo menos que eu me lembre.
Passado um par de anos, eu e a Inês antagonizámo-nos. E isto é suavizar a coisa. Ela lembrou-se de meter-se entre mim e o meu apaixonado (mais tarde namorado) e eu não perdoei. Depois de um sermão de horas em que ela nem abriu a boca, nunca mais lhe dirigi palavra. E nestas coisas eu era definitiva.
Não fosse esta modernice do FaceBook e passaria bem sem saber mais dela. O que não quer dizer q não me lembrasse da sua existência. Mas não me fazia falta. Depois, com o advento da minha entrada no FB, lá nos (re)descobrimos e através de fotografias e comentários mútuos, até parecia que nada acontecera. Old friends. Fui sabendo da gravidez, da enorme felicidade com a sua 'princesa' e vendo as magníficas fotografias dela a dancar - totalmente entregue e apaixonada -, das suas aventuras em férias e daquela força toda que há dentro dela, que bem se vê em algumas imagens que me parecem descabidas e despropositadas por estarem tão longe da minha realidade. Mas ultimamente tenho-me descoberto a 'julgar' muito menos. Se calhar é isto crescer.
Não consigo deixar de pensar na Inês. Em coma. Apagada, fechada. Longe. E a filha a precisar tanto dela. E estou em ânsias pelo dia em que vou chegar ao FB e encontro no seu mural : Back from the dead, seguido de muitos smiles. Ou uma frase assim, mesmo à Ines. Uma tirada carregada de show, como ela. E que me faça respirar de alívio e pensar se não seria boa ideia voltarmos todas aos dias em que não nos largávamos as cinco e dávamos por nós felizes em cima de um muro, a cantar para quem quisesse ouvir "You are my sunshine", só porque sim.
Só porque a Inês voltou e está por ali à procura de um palco qualquer.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Reforma antecipada
Estavam sentados lado a lado. Quase que se tocavam. Quase. Entre eles um suspiro. Um suspiro como fronteira, muro, limite. Era um suspiro espesso, pesado, denso. Com muitos anos dentro.
Começaram ao mesmo tempo, no mesmo dia, na mesma hora, na mesma cirurgia. Ela com as mãos a tremer. Coisa rara, uma mulher cirurgiã. Ele com o coração num sobressalto. Coisa rara, um enfermeiro instrumentista.
Ouviram as mesmas risadas, as mesmas palavras trocistas, a mesma arrogância. Juntos, sem precisarem de conversas nem muitas palavras, destroçaram os preconceitos, os escárnios, os medos. Aprenderam a entender-se só com o olhar. Por baixo da roupa verde, da máscara que tornava todos iguais quando no bloco e sob a luz gélida do pantoff, só precisavam do olhar para terem longas conversas. As cirurgias até hoje, ao fim de 31 anos, ja tinham o seu ritmo próprio, o seu método, a sua ciência. Exacta. Ela não precisava pedir o bisturí ou o fio de sutura. Já o tinha na mão estendida.
Assim como ele a apertou num abraço no dia em que a mãe dela morreu. O abraço que o corpo dela tanto pedia, os olhos suplicavam, mas as palavras calavam. Ou quando ela lhe tocou a mão no dia em que a mulher o deixou. A mesma mão que fugiu do enlace dele quando a tentou prender. Era um para sempre longínquo de mais e os filhos dela ainda pequenos demais.
Hoje era o último dia de trabalho. A reforma chegara para os dois. Agora e aqui o seu casamento de todos os dias acabava.A despedida tambem não precisou de palavras. Só um olhar pesado, suspirado, que disse tudo.
Mas eles ainda ali estão. Demorados, sentados, quase colados. Sem vontade de ir. Sem quererem acabar.
Sem coragem para começar.
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