Um desafio aos leitores!!

Já que umjeitomanso.blogspot.com me «anunciou» enquanto Contadora de Histórias, vamos lá pôr-me à prova! Quem se interessar, envie-me email (diazinhos@gmail.com) ou deixe comentário num dos textos, com uma palavra ou frase que me «inspire» para um próximo texto. A ver se pega e a ver se estou à altura..

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Amanhã de Manhã

Soubesse eu escrever música e seria definitivamente esta que gostaria que fosse de minha criação. Um verso que fica e uma melodia encantada.
Volto aqui tanto tempo depois da última vez para partilhar um (novo) momento alto da música portuguesa, escrita e cantada em bom português.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Absolutamente extraordinário! Vídeo impresssionante made in Portugal

Depois de tanto tempo - e porque o tempo ultimamente é mesmo o meu bem mais escasso - volto aqui para partilhar o videoclip mais extraordinário a que assisti, de uma banda portuguesa de uma qualidade fenomenal. Não deixem de ver este impressionate e fiel retrato dos nossos dias! Vejam e partilhem. Devemos apoiar o que é nosso, principalmente num momento tão difícil para a cultura em Portugal, em que até os projectos de qualidade - como este, definitivamente - encontram as maiores dificuldades para fazerem o seu caminho. Aproveitem :)

sexta-feira, 4 de março de 2016

Bom dia

Há um momento em que desaparecem os limites entre a tua pele e a minha e é nesse momento que deixo de saber se sou eu, se tu, quem se prende em mim. Há um momento, mágico, em que os teus dedos entrelaçados nos meus deixam de ser teus para serem meus e os meus, teus e nos deixamos ficar assim, sem tempo para acabar e em que o tempo deixa de contar. Há um momento em que as nossas respirações entram em unissono, rítmico, igual, e em que o meu sorriso se encontra no teu de menino adormecido - a sonhar sonhos bons. Gosto de entreabrir os olhos para espreitar-te assim, de sorriso leve, doce, que vem lá do fundo de ti. Gosto de todos os teus sorrisos quando estás de olhos postos em mim, mas gosto ainda mais do teu sorriso adormecido, abandonado, esquecido das correrias e contra-tempos, só feliz por estares aqui. Há um momento, que se quer eterno, em que somos iguais, almas gémeas reencontradas um no outro, corpos abandonados dos dias e em que resta apenas a essência do nós que somos um perto do outro. Eu e tu, nestes momentos nossos, somos mais-que-perfeitos, somos um.

sábado, 24 de outubro de 2015

Mais-que-perfeito

Estamos no topo da montanha, no topo do meu mundo. Encho o peito deste ar transparente e doce, dou uma volta sobre mim - braços bem abertos, claro, há que abraçar estes momentos encantados  – tenho vontade de cantar bem alto e tenho vontade deste silêncio cristalino. O verde nas rochas cinza, brutas, agrestes, esconde um bocadinho destes que somos nós. Estamos enleados na natureza e isto é tão bom assim.

«Procura a minha mão», penso para mim. E os teus dedos tocam os meus. «Puxa-me para ti», penso. E num instante estou encaixada no teu peito. «Toca-me levemente como só tu sabes nestes cabelos negros impossíveis», penso. E logo a tua boca beija a curva da minha nuca.

Vamos ser sempre assim, digo-te num segredo, a voz esmagada pela plenitude daquele sítio, daquele momento. Nosso. Dizes-me que sim com um beijo demorado na minha boca. Gosto quando demoras os teus lábios nos meus. Devias fazê-lo mais vezes, mesmo entre as tuas pressas e correrias. O teu sabor no meu-que-é-teu-que-é-meu. Aquela coisa do mais-que-perfeito, que nos oferecemos um ao outro desde o nosso princípio.

Devíamos começar a descida, vamos demorar e os outros esperam-nos lá em baixo, naquelas ânsias de voltar. Sempre todos a quererem voltar: dão uma espreitadela, suspendem a respiração e depois toca a correr de volta para os dias iguais. Mas eu só quero ficar, parar, respirar, sentir. E estar contigo assim na minha pele.

Podia fazer aqui uma casinha, um T zero ínfimo, só assim um tecto para abrigar-nos nos dias de chuva ou do sol fervente do Verão que queima, nestas terras que tanta falta me fazem lá no nosso mundo de todos os dias. Pois era, fazíamos assim um abrigo e vivíamos aqui em contemplação, suspensos, alimentando-nos desta pureza toda, desta transparência. E do nosso amor.

«Vamos».

Trazes-me de volta ao que deve ser, à normalidade, lembras-me que os outros estão lá em baixo à nossa espera, que ninguém vive de amor e do ar e da transcendência e de frios bons na beira da pele. Nem isso pode ser assim só por termos a sorte de ter a mão na mão um do outro.

Sorris e levas-me contigo, cheio de felicidade dentro de ti.

«Podíamos casar-nos aqui». Saiu-me e tu gostaste. Eu que sempre te adiei esse dia, agora podia ser já. «Agora podia ser já; gosto disso», dizes-me tu como tantas vezes dizes do que me sai para ti.

A descida é rápida contigo a guiar-me, eu vou perdendo a minha leveza, vou ganhando o peso dos dias de todos os dias, do que tem de ser, do que deve ser e já não sou aquele ser alado em que me torno quando estou lá em cima, no meu mundo.

É esse mundo que quero agora e já que passe a ser nosso, o nosso mundo onde voltamos toda e cada vez que os teus lábios se demoram nos meus e a tua pele passa a ser a minha. Queria, agora e já e para sempre, assim.



quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Aurora

Uma menina pequenina, pequenina, rodopiava sobre si mesma e cantarolava uma música triste. Mas sorria e até lhe podia ver os olhos a brilhar. Era uma menina doce, de longas tranças negras, vestido de folhos encarnados a encher os ombros e o fim da saia que rodava e rodava sem parar.

Esta menina, pequenina, tão pequenina estava sozinha e nem dava pelo tempo passar. As mãozinhas abertas deixavam o vento bom correr entre os dedos e a pele arrepiava-se em minúsculas bolinhas com o frio que lhe enchia a barriga e o peito. A menina estava sozinha mas estava feliz. Era o sabor da liberdade que tinha na boca, nos olhos, na pele e se rodopiava sem parar era porque nada mais lhe apetecia fazer. Só assim a sentir o bom que é ser feliz. E solta, livre, a voar.

Parámos todos a olhar, quietos, mudos, sem percebermos bem ao que vinha e porque ali se demorava; não sabíamos se devíamos perguntar-lhe o que quer que fosse ou agarrar-lhe a mãozinha rosada para ver se a fazíamos sossegar. A respiração presa, uma vontade sem vontade de a fazer parar.

A menina pequenina, mesmo pequenina, sozinha, tão sozinha nem via os tantos que agora a rodeavam, sem saberem o que fazer ou pensar, enleados naquela canção triste e doce, naquele rodopiar sem parar, no encarnado dos folhos, nas perninhas roliças incansáveis, no imenso sorriso que a enchia de flores e coisas boas por dentro.

Um a um fomos desviando o olhar, seguindo o caminho, não querendo pensar se ela ficaria sozinha por mais um minuto ou uma vida, mas com uma inveja a crescer-nos por dentro, com vontade daquele sentimento puro e leve, com vontade de cantar, de dançar ou mesmo com um mundo inteiro na palma da mão.

Estou aqui no meu canto e lembro-me daquela menina encantada, sozinha no meio dos crescidos que a olhavam admirados e sorrio, sorrio mesmo de dentro para fora e do princípio ao fim de mim, porque agora percebi: ela sou eu.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Na Rua das Flores

Eram doces as horas que passava longe de ti, depois de ti. Passo a explicar: longas eram as horas em que te esperava, colada à janela, os dedos gelados no vidro frio, sustendo a respiração à espera de te ver chegar. Se o tempo parava enquanto ali não estavas, certo é que desaparecia quando estava junto a ti. Ainda agora chegavas e já era tempo de ires. Mesmo que tivesses estado em nós por uma manhã, uma hora, ou um mês. Mas depois doces eram as horas em que tinha ainda o teu cheiro no meu braço e o teu sabor a sal cá por dentro de mim. Visceral. Tu eras visceral em mim. Toda eu sorria, toda eu me demorava a lembrar as palavras e os gestos. Era a doçura de lembrar o bom de estarmos feitos um. Não custavam as horas de volta da roupa, o ferro a queimar, o cabelo colado na testa, o cheiro a suor que também era ainda um bocadinho teu. Não custava a senhora lá dentro a pedir os chás, nem os meninos que me puxavam em gritos, nem sequer a má cara do senhor. É verdade que os dias em que tardavas a aparecer custavam um bocadinho mais, a respiração sustinha-se e ansiava pelo teu recado. «Hoje estou aí». Sempre assim, com essa tua letra desenhada e tombada, que enchia a folha branca de papel que me cheirava a ti. O miúdo dos jornais trazia-me o teu recado enrolado no bolso e ia-se a rir, não sei se do meu sorriso, se da moeda gorda que acabava de ganhar. Nesses dias deixava a porta dos fundos só no trinco, tu puxavas o cordelinho e deitavas-te de mansinho ao meu lado, na minha cama que era nossa e assim deixava de ter princípio-fim. Os senhores nunca punham pé no meu quarto e por isso podias por ali ficar o que quisesses. O que tu quisesses. Se fosse por mim chegavas e não ias nunca mais. Nunca te fiz uma pergunta, nunca pedi tempo, nunca te disse mais do que o bom que era ter-te para mim. Naquele dia havia festa lá na rua dos meus pais. Contei-te dos fogos e das sardinhas, das minhas gentes e do tanto que te queria levar. Contei-te dos miúdos e dos berlindes, das avós e mezinhas, da casa que tinha como minha e que esperava por nós. Sobressalto. Teu. E um silêncio negro de chumbo. Mas nesse dia eu não era aquela eu de todos os dias contigo, naquele dia eu estava feliz demais, tão demais, porque tu tardaste na minha cama, não corrias… e porque naquele dia me trouxeste uma rosa encarnada. E eu ia falando de uma vida para nós enquanto olhava aquela rosa encarnada tão bonita na minha cómoda escura, o teu peito encostado nas minhas costas e eu desenhando novos dias para nós enquanto as minhas mãos dançavam no ar, felizes na antecipação de uma vida para os dois. Uma noite disseste-me: gosto de ver as tuas mãos assim, a contarem as tuas histórias. Mas nesse dia não disseste nada. Acho que suspiraste, assim uma espécie de um respirar triste e sem volta. Saíste da cama e eu a falar, a falar dos dias em que esperava por ti, dos dias em nos lembrava, do quanto te queria em mim para sempre, sim sempre e sempre e sempre e nem ouvi as calças a esconderem o teu corpo, nem o passo arrastado das tuas botas pesadas, nem sequer a porta a bater. Sem volta. Continuei a falar, a dizer tudo de nós, o que calara por tanto tempo e já só falava e enchia o quarto de palavras já sem sentido, de palavras já fora de prazo e com pouco de mim, palavras que ia desenhando no ar como faço desde miúda. Enchi aquela rosa de lágrimas e esvaziei-me ali. Em confissão. Nessa noite rodei e bailei sem parar. Os rapazes puxavam-me para dançar e eu leve, infinitamente leve, voava nos seus braços. A rosa encarnada não saiu do meu cabelo e ao fim da noite estava encantada a ver os fogos ao luar.

domingo, 31 de agosto de 2014

Agosto na praia dos Pescadores

Prenderam-me a atenção: ela sentada no barco, arrastado pela areia à força de um tractor velho demais para ainda andar na arte, ele a acompanhar o barco, de sorriso no sorriso dela, a mão pousada sobre a dela, os dois assim sem palavras, só o vento a levar-lhe o cabelo para os olhos - a ela - e a encher-lhe os olhos claros de lágrimas - a ele. À volta a confusão de todos os dias, os gritos possantes, as gargalhadas frondosas, o palavreado que fere os ouvidos dos lisboetas que só ali vão de passeio, a cantoria das mulheres, fortes e cheias, de peito pesado e mãos ligeiras.

O barco baptizado de «Até que Enfim» desliza na areia como num rio espelhado e as redes seguem-nos carregadas de peixe luzidio. Ele segura-a num salto leve e um riso feliz enche a praia. Logo um pescador de voz grossa o chama de chapão, que se deixasse de parvoíces e fosse puxar as redes. Tudo isto bem regado de palavras impossíves de transcrever. O sorriso dela cai devagarinho na areia e o rapaz lá salta para o meio da confusão, tronco nú, queimado e musculado, pele grossa do sol e sal.

(A história deles não ma contaram por palavras, ninguém se abeirou de mim e me disse das suas razões - pena que tenho, porque se há coisa que gosto é que me contem histórias, me encham de sorrisos de outras vidas, me mostrem mundos outros que não o meu - mas a história destes dois fui sabendo nas minhas tardes de Verão na Costa, ali bem perto de casa e ao mesmo tempo tão longe de tudo.)

Susana chegara há pouco para o Agosto em Portugal. A velha história daqueles que fogem da vida difícil à procura de qualquer coisa melhor lá fora. Em França, perfeito cliché, claro está. Ela não tem mais que 20 anos, mas a ele só o sorriso de menino o trai, porque o corpo e o passo pesado dão-lhe duas vezes mais idade. Joaquim. Quim dos Anzóis, como chamam os mais novos ao vê-lo passar com as galochas ensopadas e o cabelo loiro num desalinho. Loiro daquele amarelo queimado pelo sol, rebelde e àspero, tão diferente do cabelo de Susana que liso se cola ao vento, castanho e sem história.

(Agora para conseguirem ver esta história com a luz que eu a vejo, têm que lembrar-se das tardes ventosas deste Agosto, das pessoas fugidias ou enfiadas nos seus chapéus e toalhas, e mesmo da doçura deste Verão que não sufoca e nos deixa mais despertos para as histórias que nos rodeiam. Pelo menos é o que me acontece a mim. Gosto do vento na cara, inspiro-o com força, encho-me e crio reservas desse fresco e caminho ate à pontinha do mar, até estas ondas carregadas dos últimos dias e deixo os salpicos pintarem-me as pernas secas e encherem-me de um arrepio bom.)

À noite há sempre conversa e música ali na casa da Tia Arminda, todos cá fora, cadeiras de plástico, um rádio com música a passar, um dos velhos mais bebido puxa uma das avós para dançar, a risota, a simplicidade dos momentos bons naquelas vidas duras que marcam o corpo e vincam a pele. Joaquim e Susana bem perto um do outro, as mãos que se tocam quando ele lhe passa uma Fanta, o sorriso dela que se esconde do olhar dos avós. Tudo fica ainda mais doce enquanto o sol poisa ao de leve no mar enraivecido.

Estou ali por perto, numa tasca improvisada com chapéus de uma marca qualquer de cerveja, enquanto me derreto num gelado bem doce. A minha companhia momentaneamnte silenciosa deixa-me aproveitar para ouvir a conversa de duas mulheres de cabelo branco revolto e mãos rudes como homens. «Isto já dura há muito, bem sabes. Não te lembras que em miúdos não se largavam? E no dia em que a Suse se foi, gaiata ainda, não tinha mais que uns 12 anitos mal amanhados, ele foi atrás do carro até lá ao cimo da rua, ficou muito tempo parado, a olhar, mãos nos bolsos e nem uma palavra, nem um gesto, nada. E assim se ficou calado, até ao Verão seguinte em que ela veio de férias. E assim tem sido sempre. Este meu neto é de ideias bem feitas, já te digo. Estou farta de avisá-lo para esquecer o raio da moça, vai haver um Verão que já não volta, fica agarrada de vez a um finório lá na França e depois fica-me aqui o rapaz calado para sempre». A outra ri-se «Até parece que não te lembras como era no nosso tempo...o Agosto era sempre uma galhofa, tantas histórias para contar...». Rio-me com elas. E vejo aqueles dois, lá ao fundo, no vão de uma escada, os corpos encostados e as mãos dele a apertarem-na no ar.

No próximo Verão hei-de cá voltar. Em Agosto ninguém me vai tirar a Praia dos Pescadores. Quero saber destes dois e em que fica esta história. Se o barco passar vazio no areal, o Joaquim mudo e orfão do seu sorriso de menino, salto ligeira para o «Até que Enfim» - esquecida dos tantos anos e mundos que nos separam - e dou-lhe o meu melhor sorriso à espera que a sua mão me venha agarrar. Pelo menos, até Agosto acabar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Regressos

Vá desafiem-me, ponham e disponham de mim, piquem-me, façam-me acordar. Levem-me de volta ao prazer da palavra escrita, da minha imaginação que se deixa ir ao encontro da vossa vontade, das minhas histórias que letra-a-letra nos unem por alguns instantes. Levem-me a inventar-vos um conto, uma ideia, um pequeno começo-meio-fim, levem-me a conhecer-vos sem vos ter ao lado, levem-me para aquele sítio em que sou tão feliz, com uma caneta imaginária na boca, os olhos fechados e um caderno meio cheio apertado no meu colo. Vamos lá, vamos pôr-me à prova, saber se ainda por aqui andam as tantas histórias que me enchem os dias de todos os dias, as histórias de todos nós, os episódios que nos fazem crescer e avançar de novo. Vamos encontrar, uma e outra vez, estas histórias que andam pululando por aqui à minha beira, prontas, prontinhas para saltarem cá para fora. A escrita, mais que um prazer é uma necessidade. Vamos lá.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Físico-Química

Há uma coisa em nós que é só nossa. Ou melhor, há uma coisa em nós que é só minha. Talvez seja também tua, mas nunca me disseste. Se assim for, estaremos perto da perfeição. Há uma coisa em nós que é o nosso sabor. Eu passo a explicar: o meu sabor é o teu e o teu é o meu. Mesmo com os cigarros, os iogurtes de morango, ou as horas de silêncio, ainda assim o meu sabor é o teu. A minha boca encontra-se na tua. O nosso sabor é o meu. E é esse meu sabor que encontro em ti que me faz esquecer - naquele preciso instante do nosso beijo - o tanto que me magoas e me fazes doer. Naquele instante em que o nosso sabor é um só, tudo passa. Claro que depois por qualquer coisa ou por muita coisa, tudo volta a torcer e a doer; mas naquele nosso instante, não. Por isso talvez seja essa a única coisa que faz sentido, que explica e que segura. Esse teu sabor é meu, sabe a nós e sabe a casa. Já me disseste tanto e ainda não me disseste nada. E assim vamos andando, entre abraços que apertam e palavras que doem. Enquanto o teu sabor for o meu, vou continuando. De mãos na cabeça e no coração. A agarrar-te e a afastar-te, num vai-vem que cansa, mas a que estamos condenados. Ao fim deste tempo percebo aquilo que me disseste um dia de um nosso beijo eterno. Eternamente condenados a nós, enquanto o teu sabor me souber ao meu.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Vai ser tão bonito descobrir

Nós havemos de nos ver os dois Ver no que isto dá Ficar um pouco mais a conversar Ter a eternidade para nós Quem sabe jantar Se tu quiseres, pode ser hoje Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Nós havemos ambos de encontrar Um destino qualquer Ou um banquinho bom para sentar Vai ser tão bonito descobrir Que no futuro só Quem decide é a vontade Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Tem de acontecer, porque tem de ser E o que tem de ser tem muita força E sei que vai ser, porque tem de ser Se é pra acontecer, pois que seja agora Que seja agora Que seja agora Se é pra acontecer Pois que seja agora (dos Deolinda)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

In & Out

Há muito tempo que não me ponho bonita para ti. Há muito tempo que não me faço bonita como sei que gostas, que não me arranjo, que não me ponho com o que te faz tremer, que não mostro o melhor de mim. Por fora e por dentro. E durante muito tempo só mostrei o mau, quis mesmo só mostrar-te o pior, o escuro, o difícil. Por dentro e por fora. Para saberes de tudo de mim. Há muito tempo que não te seduzo, que não olho no fundo dos teus olhos com malícia, que não te faço o sorriso quente que sei que te faz desassossegar, que não te digo ao ouvido as palavras que sei que te fazem gemer.
Há muito tempo que não te procuro da mesma forma como te procurava no início de nós, no meio de nós, no que sempre fomos nós. Há muito tempo que não te provoco, que não te tento, que não te quero fazer derreter. De todas as formas; por dentro e por fora. Há muito tempo que não te namoro, que não te procuro assim, que me deixo apenas levar por ti. Agora é o tempo em que me deixo conduzir por ti, sem procurar, forçando-me a ser paciente e a esperar pelo teu tempo. Até chegar, de vez, o nosso tempo. E quando chegar, vou olhar-te bem por dentro, vou encostar a minha boca bem no canto da tua orelha fria, o meu sorriso a chamar-te, a pedir-te, a tentar-te e a sussurrar baixinho «chegou o nosso tempo» enquanto enrolo as minhas pernas nuas em ti.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Para hoje

Para hoje: a lua que mais alta brilha, A curva da Arrábida, o frio que me faz tremer nas tuas mãos e que enche ainda mais o teu abraço de mim. Esta música na noite e dentro de nós (podia até ser, com sorte, - minha - que te convencesse a dançar um slow gelado). Para hoje era assim, só doçura num momento nosso que dura para sempre. As simple as this.

sábado, 16 de novembro de 2013

Noite de cinema (ou talvez não)

O reencontro puro, mesmo que sem pele, mesmo que sem cheiro. Mas o reencontro, finalmente, no que ouviu, no tom, nas palavras, doces como ele. Ela vira-se assim, do avesso, mostra tudo, diz tudo até ao fim e então, finalmente, finalmente, ele volta. Ela sorri toda, flui, torna-se leve por um instante e de olhos bem brilhantes.
Lembra-o do tanto que gosta dele, do difícil que é, da falta da sua boca na dela, dos abraços que faziam deles apenas um.
Agora, só quer que ele não se vá, que fique, assim, sempre. Mas já não tem coragem de pedir. Já não vai pedir mais nada, deixa-se só a acreditar.

(pára a fita e a crú no ecrã: Intervalo)

(grande Lou Reed, a banda sonora perfeita, música linda, linda, linda)
When I think of all the things I've done
and I know that it's only just begun
Those smiling faces, you know I just can't forget 'em
but I love you
When I think of all the things I've seen
and I know that it's only the beginning
You know those smiling faces, I just can't forget 'em but for now, I love you
Just for a little while oh baby, just to see you smile
Just for a little while
When I think of all the things I've done and I know that it's only just begun
Oh, smiling faces, Jesus, you know I can't forget 'em
But for now, I love you right this minute, baby now
I love you at least for now,
I love you

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Black & White Love

Saudades do teu sorriso ao ver-me chegar. Saudades do teu sorriso difícil de chegar. Saudades do teu sorriso nas palavras fáceis. Saudades do teu sorriso raro. Saudades do teu sorriso que é só para mim. Saudades do teu sorriso no meu. Saudades de todos os teus sorrisos.


There are many many crazy things
That will keep me loving you
And with your permission
May I list a few

The way you wear your hat
The way you sip your tea
The memory of all that
No they can't take that away from me

The way your smile just beams
The way you sing off key
The way you haunt my dreams
No they can't take that away from me

We may never never meet again, on that bumpy road to love
But I'll always, always keep the memory of

The way you hold your knife
The way we danced till three
The way you changed my life
No they can't take that away from me

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Mais histórias de princesas

Esta música tem uma história minha. Ele era suíço e estava em Lisboa a estudar por 6 meses. Ficou em casa de um amigo meu, num daqueles programas de intercâmbio europeus, acredito que os primórdios do Erasmus. Ele mais velho que eu 4 ou 5 anos, eu com 19 e com um namorado já há 3 anos (nestas idades, cada mês é um festejo...). Eu e o M., o suíço, rapidamente nos aproximámos e criámos uma grande cumplicidade - porque só eu e o meu namorado falávamos francês, entre o nosso gigante grupo de amigos e o inglês dele era um sofrimento. Ele tinha uma namorada linda, linda, linda na Suíça.
Um mês depois de se ter ido embora - depois de uma despedida abraçada e demorada demais; silenciosa demais - enviou-me um email com esta música. Dizia que o fazia lembrar de mim. Quando somos novos e a começar a viver este mundo dos «crescidos» todas estas coisas fazem muito sentido e marcam muito. Ele dizia que pensava em mim todos os dias, que se eu quisesse voltava, deixava a vida dele, começava uma nova cá, comigo.
Eu sempre fui muito pouco de aventuras, muita contida e certinha (tive que chegar à idade realmente adulta para descobrir o que era a liberdade em todos os sentidos), disse-lhe que não, não fazia sentido, não havia como - apesar de estar fascinada por aquele sorriso de grandes olhos azuis.
Não aconteceu e não era para acontecer; acredito que ele, tal como eu, nunca mais tenha pensado em tal coisa e que tenha ficado apenas como uma lembrança longínqua que faz sorrir.
E porquê isto hoje? Porque às vezes há esta vontade em mim de ser Princesa como nas histórias que leio às minhas crianças, de ser arrebatada e levada «feliz para sempre», vencendo todas as contrariedades e coisas más, ao som de uma música tão doce quanto esta - e porque será que agora a sinto triste? -, que alguém me cantaria baixinho ao ouvido, jurando-me que é mais feliz só por eu existir no seu mundo.


YOUR SONG
It's a little bit funny this feeling inside
I'm not one of those who can easily hide
I don't have much money but boy if I did
I'd buy a big house where we both could live
If I was a sculptor, but then again, no
Or a man who makes potions in a travelling show
I know it's not much but it's the best I can do
My gift is my song and this one's for you
And you can tell everybody this is your song
It may be quite simple but now that it's done
I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world
I sat on the roof and kicked off the moss
Well a few of the verses well they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song
It's for people like you that keep it turned on
So excuse me forgetting but these things I do
You see I've forgotten if they're green or they're blue
Anyway the thing is what I really mean
Yours are the sweetest eyes I've ever seen

terça-feira, 22 de outubro de 2013

The Wedding Day

Nós, num jardim fresco com o rio ali tão perto.
Ou então: Nós, no cimo de uma montanha carregada de verde e o orvalho ainda nas flores.
Ou ainda: Nós, na casa do moinho, todo engalanado e cheio de risos. 

O cenário não interessa.
Nós. A comunhão do que somos, das nossas mãos que não se largam, do nosso olhar um no outro.
A comunhão com os que queremos e nos querem bem.
As palavras que diremos um ao outro e aos que nos rodeiam.
As crianças a puxarem-nos pela roupa, pelo braço, pela ternura que trazemos em cada momento.
O brilho do sol do fim do dia, que tanto tanto tanto gosto. O dourado nos meus cabelos e nos teus olhos.
Música  a encher-nos e ao nosso dia, amigos que cantam e pequeninos que dançam sem parar.
Eu que danço para ti a dança prometida.
Tu que me pegas sem aviso e me levas até um canto esquecido.
Os doces da minha avó na tua boca e a mão da tua mãe a amparar-me o rosto.
As nossas palavras secretas que passam a ser de todos os nossos.
As promessas partilhadas que não têm tempo-fim.
Um dia que se faz de eternidade.
Nós dois para sempre um.
Nós .

 

domingo, 13 de outubro de 2013

Histórias de Princesas

Pés descalços na relva, o Tejo logo ali, o sol espelhado nos óculos escuros e uma brisa perfeita. A minha cidade que me apaixona cada vez mais. As minhas crianças aos saltos na relva e os seus risos que se misturam com a nossa conversa. Eu e a minha amiga.
Ela diz-me «Tenho saudades de namorar na relva, com a cabeça no colo de um apaixonado, numa tarde demorada, conversa tonta, sorrisos iguais e pontas dos dedos na pele um do outro. Tenho mesmo falta disto».
Pergunto-lhe com quem teve ela «isso». Cala-se por uns segundos. Vejo-a pensar, franzida. «Pois, realmente não me lembro de ter estado assim com nenhum dos meus amores. O que não quer dizer que não tenha estado, mas realmente não me lembro. Mas tenho muita vontade de estar assim, de coração tranquilo, da serenidade e de preferência com sorrisos das nossas crianças por perto, assim como as tuas que volta e meia te vêm besuntar com um beijo, um bocadinho de colo e lá seguem nas brincadeiras.» Sossego-a: «Não te preocupes que vai acontecer. Não penses nisso e quando menos esperares, acontece. Comigo tem sido sempre assim. Quanto menos quero, mais tenho.» E sorrio-lhe, tentando convencê-la.
Sei o que ela quer, quer viver todos os dias o amor da sua vida, em pleno. Os dias de pés descalços na relva são bons, mas são ainda melhores com o coração totalmente cheio, sem faltas, a transbordar.
Os meus miúdos correm para as duas, roubando-nos abraços, colando-nos sorrisos.
O tempo demora e o sol de Lisboa é o melhor do mundo. Isso e ter alguém que nos envia uma sms, cheio de saudades porque já estamos a demorar e nos diz sentado no nosso sofá «Anda cá».

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Para a minha querida C. de nome especial

Tenho uma amiga de nome especial. Já nos conhecemos há alguns anos - 16 já são alguns anos, não é? - e entre outras amigas e amigos que chegam e vão, aos quais se juntam uns novos de quando em vez, ela é a minha amiga especial. Por isso tenho esta sorte de poder dizer que tenho uma amiga especial de nome muito especial.
A minha amiga é pura. Puramente pura, transparente, verdadeira, genuína. Com ela não há jogos, nem segundas intenções. A minha amiga é crua, é única, é melhor que os outros. E eu acho que ela devia ter muito mais pessoas a dizerem-lhe tudo isto, muitos dias, muitas vezes ao dia.
A minha amiga está perto de mim. Esta é a minha amiga que eu quero perto. Está perto de mim enquanto cresço, quando caio e quando danço - sem falarmos sequer disso, porque às vezes não são precisas mais palavras, só momentos bons -, está perto, ao meu lado sempre que preciso e nem preciso dizer-lhe.
A minha amiga traz serenidade e sorrisos com ela, tem uma felicidade pura dentro de si.
Neste dia da minha amiga C. aqui fica, em jeito de presente, uma das minha músicas preferidas.
(Parabéns C. !!! - e desculpa por hoje não te ter dado o beijo que merecias...Daqui a uns dias lambuzo-te toda ;) e até lá, aqui fica o meu mais puro beijo virtual!) 

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Wishful tihinking

Dançarmos, vestidos de sorrisos, mãos nas mãos, pés na areia molhada, as ondas a tocarem-nos de mansinho, a lua lá no alto, a estrela dos desejos tão brilhante, uma brisa quente e um momento que se quer para sempre. E esta música.
Podia ser sempre assim.

domingo, 29 de setembro de 2013

Mudanças de hora

Era uma casa muito engraçada, não tinha tecto, nem porta, nem nada. Era uma casa nossa, depenada, despencada, desencontrada de todas as outras. Era nossa.
Muitas vezes chovia dentro, ventava até, gelávamos por baixo da pele e batíamos os pés no chão em desatino. Quase que gritávamos. Encostávamo-nos cada um a seu canto, procurando fugir do que molha, fugir do que esfria, fugir do mau tempo que havia no meio da nossa casa sem tecto.
Não demorava muito até eu o procurar, entre tremideiras e suspiros, ou ele chegar-se a mim de mansinho, encaixando-me no seu abraço, como precisávamos os dois.
Claro que também havia os dias do sol fervente, do calor que não se podia, enchendo a casa, a nossa casa, de suores e impaciências, o desespero por uma sombra, uma frescura para nos aliviar, encostados à parede, derretidos no chão.
Nos dias suportáveis tocávamos a ponta do pé um do outro, em jeito de comunhão - isto não se aguenta, não penses em encostar-te que não dá - e escorríamos os dois, às vezes sorrindo, outras apenas de olhos fechados à espera que passasse.
A nossa casa não tem telhado, para o bem e para o mal.
Nestes tempos em que o Verão se vai e começamos a ver os dias a desaparecerem mais rápido do que o relógio mostra, ficamos apreensivos a pensar no que virá. Sabemos que voltamos, voltamos sempre, mas Invernos houve, tão gelados e escuros, em que nos mudámos, cada um para sua casa, longe daqui, longe um do outro, tentanto a vida numa casa igual às outras.
Podemos demorar mais ou menos, mas voltamos, voltaremos sempre, porque esta casa é a nossa e sabe bem encostar-me a ele, a minha mão procurar o dentro da sua camisa, encontrar o quente, oferecer-lhe tudo o que sou de cima a baixo, de fora para dentro e aquecermo-nos assim um ao outro. Mesmo com a chuva a pingar-nos a testa e o vento bravio a entrar ainda antes da noite. Mas sorrimos porque estamos em casa, na nossa casa. E porque vamos sendo felizes assim.

sábado, 21 de setembro de 2013

O nosso jardim

Tanggled up in our strange hard knots
briething just becomes easier
with your mouth silencing our thoughts
your dark eyes right here

while your hand shivers down my legs
my skin eagers for all of you
and your gentle voice on my fingertips
makes me smile brand new

You told me «we should dance»
and sang me that little song
(the one we heard on the disco years ago)
and in our bed I danced along

Perfection has no timming
You and me will have no ending
Our knots will keep us together
all of our lifes just blending

The path was not chosen
it came to us with the flow
all the knots are to be broken
here we are dancing slow

(and now we laugh,
 head to head,
 skin to skin,
and it's me who is now singing
our prettiest love song) 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Fim de Verão

Perguntava-me assim: ah então isso quer dizer exactamente o quê? E eu encolhia os ombros e dizia «Sei lá eu!».
Ficávamos, então, de mãos dadas a olhar o horizonte no topo do parque de Monsanto. Do Monsanto dizia ele. De, dizia eu. E o silêncio. Mas dos bons. Estávamos mais juntos que nunca. Tanto tínhamos horas infinitas de conversa, da mais fácil à mais intensa, como tínhamos os nossos silêncios enamorados. Enamoramento. Eu de queixo apoiado na garrafa de água, toda sorrisos por dentro, enquanto o olhava a almoçar. Ele que me encostava a mão na cara e me olhava no fundo do fundo com o seu sorriso raro, brilhante.
Um dia disse-me «Tudo em ti é meu» e eu acho que ri do bem que me soube e nem percebi que aquilo foi praga que me rogou. Agora tudo em mim é dele. Nem a distância, nem a ausência, nem o pouco que há. Gosto de saber que pensa em mim, que lembra, que no fundo ainda quer.
Agora que voltou - de mulher e filhos no abraço, de cabelo mais branco, de pele menos macia, de sorriso mais gasto e de olhar, ai o olhar, mais perdido, mais fugido de mim - sou ainda mais dele. Raio de praga infalível, inquebrável, doída que faz doer. É Agosto e todos voltam. Ele voltou sete anos mais tarde. Sete anos depois de nos termos rendido à impossibilidade de uma equação em que as parcelas não vão convergir. Queria aventura, queria dinheiro, queria mais. Eu queria este meu canto, estes meus cheiros e abraços. Um dia por muitos dias fomos infinitamente felizes e agora sete anos mais tarde, volta a agarrar-me na mão enquanto estou no seu colo, estamos no topo de Monsanto, as Amoreiras aqui tão perto, as casas, as outras vidas e amores e agora volta a pedir para esperar, que as crianças são pequenas, que não quer deixá-las fragilizadas, que sempre pensou que a outra seria afinal a sua mulher para sempre, mas que agora só me quer a mim.
Mas afinal a outra sou eu. E mesmo com ele aqui tão perto, não temos mais que os encontros de fugida, os olhares inquietos, os telefonemas que chegam sempre cedo demais.
Houve uma altura em tudo foi fácil e só tínhamos conversas tontas e eu chamava-lhe coisas doces e ele dizia-me as palavras mais queridas. Depois desencontrámo-nos e não nos resta mais do que este eterno desencontro. Eu até posso esperar, já lhe disse que sim, mas ele não me diz quanto tempo, não me diz mais do que o quanto me quer e sempre quis e que afinal tudo nele é meu. Quase tudo, gemo eu. Falta o resto. Esse resto que são os nossos dias que nos faltam e a tua mão na minha sempre que eu quiser. Ao longe vejo-te com as tuas crianças entre sorrisos e brincadeiras. Ela, a outra que não é a outra, põe-te a mão no ombro e eu penso, mais uma que está tão perdida quanto eu. Mas eu não tenho o cheiro a ele na minha almofada e já não me chegam as tardes no banco no topo de Monsanto, as Amoreiras vigilantes e a promessa de um dia.
Falta-me a coragem para ir. Mas também sei que já não posso ficar.
«Ah e então isso quer dizer exactamente o quê?»
«Sei lá eu».

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Ás vezes no silêncio da noite..

Procuro-te. É no silêncio da noite que a tua ausência é mais dura, mais só. Tento encontrar ecos de ti nos sítios mais improváveis e nos menos recomendáveis; junto de amigos, junto do que escreves, junto das memórias. Fugiste-me entre os dedos; és areia cinzenta que corre no vendaval dos dias. Procuro-te e não encontro, nem a ti, nem sequer uma sombra de ti. Deixaste-me em silêncio, sem aviso, sem notícia, sem uma esperança sequer. Os recantos que um dia foram nossos fazem-me doer. Fujo deles, tal como foges de mim (será isso? faço-te doer?). Eu pensava num amanhã, tu só queres viver do hoje. E algures nesta confusão de tempos perdemo-nos um do outro. Past tense, present tense. Nos tempos das aulas de inglês tudo era mais fácil, fluía e encaixava com lógica e racionalidade. Past tense, present tense, future tense. As palavras são o que nos sobrou; agora parece que nem isso temos.No fundo toda esta equação impossível de nós merece mesmo uma gorda e enorme question tag: isn't it?

sábado, 10 de agosto de 2013

Vontades à parte

Um dia visto-me toda de vermelho, um vestidinho bem colado às curvas que já foram mais curvadas – mas enfim, faz parte – pinto as unhas de encarnado ou rosa choque – eu que oscilo sempre entre o nenhum verniz e o quase transparente – empino-me em cima de uns saltos altos bem fininhos - e vamos ver quanto tempo me aguento lá nas alturas. Carrego num baton bordeaux, no rímel e até no blush e lá vou eu bem disfarçada de outra que é o contrário de mim, de passo leve e dançante subo a um palco qualquer, agarro-me ao microfone e canto tudo o que há dentro de mim. Vou cantar e contar todas as minhas músicas, as que já me conhecem e as que ainda há por descobrir, encher-me de sorrisos e de lágrimas, de contentamentos e aventuras, de amores impossíveis, paixões tresloucadas e do amor para sempre. A minha voz será límpida e certinha, os meus longos cabelos negros, lisinhos como nunca são, pendurados até ao fundo das minhas costas como um longo xaile de seda. Depois desço lá do palco, coberta de felicidade e calor, desço dos sapatos agulha, apanho o cabelo, limpo a cara num paninho molhado, visto um dos meus casacos de malhinha azul escuro e sento-me no meio de gente nenhuma. Peço a água de sempre, a olhar para o copo de vinho que ainda há pouco tinía na minha mão, vejo os outros que sobem ao palco mal iluminado a saírem de lá mais dentro de si, mais ajeitados nas suas peles e vestimentas, mais soltos e gulosos da vida. Ninguém acredita que era eu ainda há pouco ali em cima. Nem eu. Só as unhas escarlates me traem. E uma gargalhada limpinha sai de dentro de mim.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Rua das Flores, número 2, 3º direito

Vejo-os da minha janela. Os prédios nesta rua estão colados; ouvimos o que dizem os vizinhos. Ou pelo menos parece-me que os ouço.
Ela enrolada em si mesma, os braços nas pernas, a cabeça nos joelhos, encaixada num canto do sofá encarnado (como o vestido que a aperta).
Foi sentar-se longe dele. Ele parece nem a ver. Fuma. Gosto de o ver fumar. Gosto quando se põe a fazer diáfanos corações de fumo branco para ela. Gostava que fizesse um para mim.
O cabelo negro pendurado, as mãos pequenas cravadas uma na outra, a voz que sai num suspiro.
Ela nesta inquietude, querendo sem querer ao fim de tantos anos. Não vê o quanto ele a quer, naquela maneira de querer, desprendida e sem verbo, mas querendo-a tão profundamente, tão dentro de si, tão para sempre. A verdade é que não a quer só a ela, não, aquele é um homem desassossegado, não se contenta só com aqueles cabelos negros, nem o corpo ainda ginasticado, nem aquela pele macia. A ele basta-lhe aquela vida pela metade.
E eu sei porquê.
No outro dia encontrei-o aqui na rua. Viu-me. Percebeu que sou aquela que os vê atrás das cortinas floridas, sem pudor nem jeito, mesmo quando estão nús no sofá encarnado. Aquela a quem ele piscou o olho entre os Ais da mulher de cabelo preto desarrumado, aquela que sempre procura na janela assim que a noite desagua entre os prédios colados.
- Um dia vou ter-te ali comigo. Mas contigo vou ficar. Contigo vai ser tudo por inteiro, vou levar-te ao altar.
E eu sorri e disse que sim, que o esperava, já nem falta assim tanto para os meus dezoito anos. Vou aprendendo com eles, vou vendo, vou conhecendo cada peça dele e um dia vou ser eu naquele sofá encarnado. Se for preciso até pinto de preto carregado estes cabelos amarelos, de preto bem carregado como os olhos dele que me fizeram aquela promessa mesmo sem o dizer. Mas eu sei, eu sei que foi isso que aquele «Bom dia» me quis prometer. Isso e o coração esfumaçado que me deixou no ar.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Dias quentes

Pé-ante-pé na areia molhada, o calor desce até uma parte desconhecida de mim, um sítio perdido ali, algures entre o fim das costas e o princípio de uma curva que me acompanha de baixo para cima; sítio onde os meus amores gostam de descansar. Os meus pés na água fria gelada dormente. Os risos que andam no ar. Eu grande com vontades de ser pequena. Não é por nada, mas só porque sim. Um dia hei-de ser criança, um dia hei-de ser tão pequenina que hei-de caber na palma da tua mão, eu toda encolhidinha e encaixada na concha dessa tua mão grande e pesada. Hás-de levar-me a passear e eu toda feliz e protegida no côncavo da tua mão que cheira a nós. (O mar é o meu amigo de sempre. Os meus melhores sonhos são com o mar, eu no mar, eu sem limites nem fronteiras, fundida na água salgada e fresca.) Talvez já saibas onde isto me vai levar, onde talvez até nos leve aos dois. Mas eu não sei. E gosto desse desconhecido, do querer descobrir, do caminho que fazemos e que se fará. Fico de sorriso marcado, pensando no pé-ante-pé que faremos, nos risos das descobertas, na perfeição a que chegaremos - ou não. Não me preocupa. Posso saltar até da concha da tua mão, para a beira do teu ombro largo e forte e deixar-me por lá a balançar as pernas no alto, o fresco no cabelo, areia nas minhas esquinas e o sabor a mar ainda dentro de mim. Um dia vou ser pequenina só para tu me poderes levar assim.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ao virar da esquina

E assim, de repente, conhece-se um homem bom. Um homem simples, de sorriso bem aberto e abraço generoso. Um homem que gosta de dar, de dar de si, de dar do que sabe, de estar presente, de dar a mão a quem passa e de apertar os meus filhos no seu peito largo.

Um homem que vamos descobrindo todo de uma vez e depois vemos o que construiu, a forma como toca vidas tão difíceis e as deixa de sorriso no rosto. Um homem e o seu cavalo. E os seus cavalos, neste caso.

É bom descobrir inspiração onde e quando menos se espera. É bom olharmos para quem nos acompanha, sorrindo incrédulos: «Isto será mesmo assim? Mesmo assim de verdade?». Como adultos, urbanóides e descrentes que somos, custa-nos a crer que encontrámos realmente assim um sítio onde nos sentimos em casa desde o primeiro instante, em que se lembram do nosso nome de todas as vezes que nos cruzamos, em que esperam por nós e nos falam como se fossemos família. Sabe bem. Sabe tão bem que se estranha.

Até para escrever estas linhas esperei quase um mês, apesar da vontade de as escrever desde o primeiro regresso a casa depois de conhecer esta nova família. Só para ter a certeza que realmente não era um embuste, que aquela família está realmente sempre pronta para receber mais um, mais quatro, mais quem for que venha de espírito lavado e sem preconceito. E para ter a certeza que conheci, de facto, um homem bom.



quinta-feira, 23 de maio de 2013

Mais uma música, só porque...

Esta tem andado comigo nos últimos dias. Não é perfeita, não é estrondosa, não é nada de novo; é apenas o que é. E é bem triste, sentida, apaixonada e bonita assim.

Just Give me a Reason - Pink feat. Nate Ruess




Right from the start
You were a thief, you stole my heart
And I, your willing victim
I let you see the parts of me
That weren't all that pretty
And with every touch
You fixed them
Now you've been talking in your sleep oh oh
Things you never say to me oh oh
Tell me that you've had enough
Of our love
Our love
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
I'm sorry I don't understand
Where all of this is coming from
I thought that we were fine (oh we had everything)
Your head is running wild again
My dear we still have everythin'
And it's all in your mind (Yeah, but this is happenin')
You've been havin' real bad dreams oh oh
You used to lie so close to me oh oh
There's nothing more than empty sheets
Between our love, our love
Oh, our love, our love...
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
I never stopped
You're still written in the scars on my heart
You're not broken just bent
And we can learn to love again
Oh tear ducts and rust
I'll fix it for us
We're collecting dust
But our love's enough
You're holding it in
You're pouring a drink
No nothing is as bad as it seems
We'll come clean
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
Oh, we can learn to love again
Oh, we can learn to love again
Oh, that we're not broken just bent
And we can learn to love again

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Entroncamento

Deixaste de sentir? Diz-me, responde-me a esta pergunta que não me larga, colada a cada pedaço de mim. Deixaste de sentir? Tornaste-te numa pedra fria, dura, gelada que sabe apenas dizer futilidades, falar do tempo e assim, dos espirros e assado, das coisas que não doem e não vincam a alma?
Foi de um dia para o outro, entrei, encontrei-te ali sentada no sofá encarnado - não é encarnado, é rosa velho, dirias tu de olhar perdido numa revista qualquer - meia distante, meia longe das nossas coisas e do que sempre fomos e por aí tens ficado. Longe de nós.
Achas que me dá prazer estar assim?, perguntaste-me de olhos molhados depois de ajoelhar-me a teus pés e pedir-te por favor que me desses só mais um bocadinho de ti. Eu já não sei o que te dá prazer, a sério que já não sei o que te fazer, te dizer, deixaste-me perdido, deixas-me sem saber, já não me encontro quando me procuro nos teus olhos, muito menos na tua mão, longe que está da minha, tão longe que já nem me lembro quantas veias consigo contar, as tuas veias azuis grossas que me mostram os caminhos que há dentro de ti.
Deixaste de sentir, de me querer, de sequer pensar em nós?
Um dia cheguei e vi-te assim, meia fora de ti, meia longe do teu corpo, afastada do nosso tempo. Vê se percebes, não é que não estejas cá e dizes até o que é suposto dizer, falas do jantar, da roupa que compraste na net, tudo muito normal, demasiado normal, demasiado conversa de circunstância, demasiado de uma mulher que nunca foste tu.
Espera, disseste-me tu baixinho, como que voltando, por um momento, um instante só, à tua outra tu de sempre, Espera dá-me o meu tempo que eu precisar que eu volto já, mas espera. E lá te foste outra vez e nem a tua mão que prendi, nem o teu sorriso que tentei guardar, nem o arrepio que te senti na pele, nem nada do que sempre foste tu ficou. Só o teu corpo e esse teu cheiro a quente doce e bom.
E aqui estou à espera, minuto a minuto, dia após dia, agarrado à tua promessa fugidia, sentindo-me perdido à beira da tua estrada.

E, ao longe, ouvi-te sorrir.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Só uma música


Hoje é só assim (só) mais uma música; esta que me diz tanto - talvez até cada vez mais - e que me acompanha há uns 12 anos. Hoje ouvi-a e apeteceu-me partilhar.
Aqui vai, The Scientist pelos Coldplay. Gostava de um dia conseguir escrever uma música assim.


Come up to meet you
Tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you
Tell you I need you
Tell you I set you apart

Tell me your secrets
And ask me your questions
Oh let's go back to the start
Running in circles; coming up tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start

I was just guessing at numbers and figures
Pulling your puzzles apart
Questions of science; science and progress
Do not speak as loud as my heart

Tell me you love me
Come back and haunt me
Oh and I rush to the start
Running in circles, chasing our tails
Coming back as we are

Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Todos os dias

Li e gostei: «As pessoas mais importantes do mundo são as que me chamam mãe». E é mesmo assim.

Pois por isso todos os dias são dias da Mãe para mim, porque todos os dias são eles o que mais importa, os meus meninos do meu coração, que me enchem de amor e de cantigas felizes, de profundas olheiras e impaciências, de sorrisos e gargalhadas sem fim.
E o melhor presente deste dia - e felizmente de quase todos os dias - é tê-los acabadinhos de acordar de uma sesta curta e tardia, coradinhos e de olhos gordos, cada um em cada um dos meus braços, enrolados, enamorados, felizes por estarem no seu ninho. No nosso ninho.

E isto é mesmo o que mais importa. Hoje e em todos os dias de nós.

sábado, 27 de abril de 2013

História de Mim - Post um bocadinho piroso, mas enfim..

Hoje não é uma história de Nós, mas uma história de mim - se é que isto é português correcto... Bem, na verdade não é propriamente uma história, mas eu a contar um pormenor, um detalhe, um acento circunflexo meu, ou uma coisa assim.

Quando passei da 4ª classe para o 5º ano, essa mudança radical na vida de qualquer menina que assim se vê passar a ser considerada uma rapariga; os meus pais ou os meus avós (não sei ao certo), ofereceram-me um rádio.
Era um rádio que dava para gravar músicas que estivessem a passar, além de também ser possível gravar as nossas próprias vozes. Esta última potencialidade, que para mim era algo de absolutamente extraordinário, originou várias tardes bem passadas com a minha grande amiga da altura. Gravávamos cassettes e cassettes (coisa que os meus filhos provavelmente nunca saberão o que é) com emissões prolongadíssimas da rádio Martana, nome curioso e sem dúvida original que resultou da junção dos nossos dois nomes.
Nesse Verão em que fiz os meus dez anos e quando abandonada pela minha grande amiga que desaparecia todo o mês de Agosto para as termas de Monfortinho, passava as manhãs a gravar músicas da rádio. Na altura eu não sabia Inglês - só começaríamos a aprender no tão desejado e aclamado 5º ano - mas esta foi a primeira música que decidi gravar da rádio e que a partir daí passei a ouvir vezes e vezes sem conta e que desde então sempre me tem acompanhado.
Quando comecei a perceber a letra tornei-a ainda mais a minha música - sou uma romântica aguda e crónica, que posso eu fazer..? Hoje lembra-me os tempos em que nós meninas-mulheres acreditamos nos príncipes encantados e nos finais felizes. Nos amores únicos, sem contrariedades, nem barreiras, nem limites, nos amores-mais-que-perfeitos, nos amores que são para toda a vida «felizes para sempre».
Claro que crescemos e percebemos que não é bem assim.
Mas a verdade é que ao ouvir esta música - sim, um bocadinho pirosa é certo, completamente tirada do báu dos tesourinhos-a-tender-para-o-deprimentes, bem sei - não consigo deixar de sorrir e de acreditar que viver feliz para sempre é possível. Com esta música de fundo e a tua mão no meu coração.

"Eternal Flame"

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Is this burning an eternal flame

I believe it's meant to be, darlin'
I watch you when you are sleeping
You belong with me
Do you feel the same
Am I only dreaming
Or is this burning an eternal flame

Say my name
Sun shines through the rain
A whole life so lonely
And then come and ease the pain
I don't want to lose this feeling, oh

Say my name
Sun shines through the rain
A whole life so lonely
And then come and ease the pain
I don't want to lose this feeling, oh

Close your eyes, give me your hand
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Or is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming, ah
An eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming, ah
Is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'




 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

lullaby

sleep tight
sleep warm all night
feeling my breath on your neck
your skin against my back

sleep sweet
sleep deep deeply deep
on the whitest sheets
where my hand finally meets

your soul just laying there
your smile just simply there

and finally sweetly you sleep
and finally you're sound asleep





sexta-feira, 5 de abril de 2013

Amor é...

De vez em quando podia ser um grãozinho de areia, mínimo minúsculo para que não desses por mim, sentada no rebordo do teu casaco, deixando-me ir para o fundo da tua nuca, deslizando para o recanto dos teus olhos onde gosto de beijar, caíndo para o quente do teu peito - no teu calor no teu cheiro - a espreitar entre a tua camisa semi-aberta e deixar-me assim estar, um grãozinho de areia feliz sem tu saberes sequer de mim.
Era assim mesmo que podia ser. Eu em ti sempre que me apetecesse ver-te, ouvir-te, sentir-te - como tantas vezes tanta falta tenho - e tu sem saberes que afinal era eu quem estava ali a desassossegar-te e toda enfiada em ti em tudo o que fizesses.
Já me disseste «És o meu desassossego» e eu sorri porque gostei. Mas agora era melhor que fosse como naquela tua musica...ser a tua calma, a tua casa, o teu recanto. E fazer-te feliz porque me farias feliz a mim também.
Hoje descobri afinal o que é o amor. Depois de tantas definições lidas, explicações tentadas, pensamentos e reflexões, hoje saiu-me assim. Amor é o sentimento mais forte e mais verdadeiro. Seja em qualquer uma das suas formas. Talvez dito assim pareça frio e sem sabor. Mas é isso mesmo afinal, amor é o sentimento mais forte e mais verdadeiro, mais puro e sensível que posso guardar em todos os pontos de mim.
Se eu fosse um grãozinho de areia insignificante e vagabundo, não te ia fazer doer tanto, nem nada disto ia custar tanto assim. Porque ia ver-te, ia saber-te, sentir-te, provar-te e saber a que sabes nestes dias. Podia ser até que conseguisse contar-te ao ouvido o tanto que gosto de ti e assim tirar-te esse vazio frio de dentro de ti.
Mas não sou.
Não sou, nem vou ser e estou aqui eu toda eu a pensar em ti.
Mas se alguma vez sentires uma impressãozinha na pele, um roçar, um comicharzinho doce, já sabes que talvez seja eu com as minhas faltas de ti.

sexta-feira, 8 de março de 2013

História Pedida 28 (por Sandra Évora): Saudade

Como explicar isto? É uma coisa assim de dentro para fora, de fora para dentro, que anda à flor da minha pele, no canto dos meus olhos e escondida no meu sorriso.
Sou a sentinela da sombra do nosso amor. Atenta, alerta, vigiando o que restou - esta sombra em que vamos vivendo, com medo que se vá de vez.
O que dizer mais, quando já não há mais a dizer? Apetece dar um Chega às palavras, um Chega de tratados, dissertações, telenovelas e espigões na ponta de cada história que vamos escrevendo. Na verdade, a vontade que há, cá no fundo, cá Do fundo, é do teu abraço no meu, do teu beijo no meu, de nós os dois mais uma vez juntos. Mas que seja uma nova vez, sem os pesos do presente-passado-presente.
Estranho isto, não é?
Como explicar o que não tem explicação? É assim, ponto final. E é assim porque sim, porque somos assim, porque somos um para o outro assim, porque há qualquer coisa dentro de nós que chama pelo outro. Que grita imensamente pelo outro.
Não nos vamos soltar disto nunca, está gravado em nós, faz parte de nós. Tornámo-nos assim, ou somos assim. Eu para ti, tu para mim. E depois a distância, este estar longe sem estar, este muro, esta parede fria, que criei entre nós. Porque já não sabia mais como viver com apenas metade de ti.

E, então, a falta de ti. A falta de ti em mim,  a falta do que eu sou quando estou em ti. Só nós dois é que sabemos.. e não há canção que nos valha o sorriso que perdemos no tempo que não é nosso.

E agora não sei como acabar esta história de nós; talvez porque não tenha ainda chegado ao fim.


(Inspirada pelo lindo poema de Sandra Évora)
Saudade
Fecho os olhos
e voo nos braços da minha memória.
Voo para um mundo distante
e antigo
onde sonho
um prado verde
sobre o dorso do meu cavalo.
Sonho as paredes onde te vi pela primeira vez
e a árvore onde nos despedimos.
Sonho uma vontade imensa
de respirar os gestos e os dizeres
que te pertencem.
Sonho os teus lábios nos meus,
a doçura da tua voz
e o calor do teu abraço.
Sonho o teu olhar
e as palavras esgotam-se.


Sandra Évora


sábado, 19 de janeiro de 2013

Whishful tihinking ou Alerta amarelo III

Pés na areia, grão a grão, poro a poro. Fundo-me assim no mundo e deixo-me sorrir.
Se entrar então devagarinho no mar transparente, gota a gota, pedaço a pedaço, sei que por momentos deixarei de ser eu, passo a ser tudo.
Gosto dessa sensação assim, de diluir-me no mundo, tornar-me parte do que piso e do que sinto, deixar-me fluir além de mim.
Um dos meus melhores sonhos sou eu a flutuar nas ondas azuis, o mar a encher-me e tornar-me vazia, a respiração esquecida, eu no meio do nada. Eu sem ser eu, eu a ser parte de todos.
Um dia hei-de viver com os pés na areia e encher-me de mergulhos no mar, perder as horas e os dias, deixar-me apenas estar.
Vou encher a areia das palavras que gosto de escrever, vou deixar o sol do fim do dia pintar-me a pele das melhores cores e o cabelo andar em constante desalinho, ondulado, selvagem, carregado do sal desse mar que há-de ser meu.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Natal Feliz!

Porque e' a minha altura preferida do ano, porque me faz sorrir e cantar, porque este Natal foi tudo o que um Natal feliz deve ser - familia, criancas, ternura, carinho, generosidade nos gestos e encontros, quero agradecer por estes diis dias imensamente bons. E como e' bom parar um segundo a inspirar o tanto de bom que temos na vida.
Festas muito felizes para todos os que me vao lendo e ao mundo e arredores!

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Lenga-lenga

Bom, bem bom, bom. Ai, ui, ai, ui. Estás, estás, estavas. Sabendo, sabias, sabemos. Um, dois, três, era uma vez a história de nós três. Anda, embora, fora, toma, anda, come, leva, leva-me, fica, fiquemos. Ri, risos, ri, sorri, sente, aperta, vive. Toma, toma-me, come, come-me. Olha aí, olha aqui, olha-me a mim, olha só o que aqui vai. Ouve lá, ouve cá, são gargalhadas, são doçuras, são mimos, são ternuras. Anda, embora, vamos, vai, leva-me, aperta-me, agarra-me, sente-me, come-me, enche-me toda, leva-me agora. Arrepios bons, borboletas all over, pontas dos dedos que comicham, cabelos que se arrepelam, coisas que só tu sabes, que eu sei, que nós sabemos nós dois. Vamos, vamos vendo, vamos sendo, com saudades do que era, com vontades do quem vem, das coisas boas, das luzes a piscar, das musicas por todo o lado, dos meninos a brincar e eu e tu e tu e eu e nós dois assim mesmo a sorrir na certeza de que tudo está quase a passar.