Um desafio aos leitores!!

Já que umjeitomanso.blogspot.com me «anunciou» enquanto Contadora de Histórias, vamos lá pôr-me à prova! Quem se interessar, envie-me email (diazinhos@gmail.com) ou deixe comentário num dos textos, com uma palavra ou frase que me «inspire» para um próximo texto. A ver se pega e a ver se estou à altura..

Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Mais uma música, só porque...

Esta tem andado comigo nos últimos dias. Não é perfeita, não é estrondosa, não é nada de novo; é apenas o que é. E é bem triste, sentida, apaixonada e bonita assim.

Just Give me a Reason - Pink feat. Nate Ruess




Right from the start
You were a thief, you stole my heart
And I, your willing victim
I let you see the parts of me
That weren't all that pretty
And with every touch
You fixed them
Now you've been talking in your sleep oh oh
Things you never say to me oh oh
Tell me that you've had enough
Of our love
Our love
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
I'm sorry I don't understand
Where all of this is coming from
I thought that we were fine (oh we had everything)
Your head is running wild again
My dear we still have everythin'
And it's all in your mind (Yeah, but this is happenin')
You've been havin' real bad dreams oh oh
You used to lie so close to me oh oh
There's nothing more than empty sheets
Between our love, our love
Oh, our love, our love...
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
I never stopped
You're still written in the scars on my heart
You're not broken just bent
And we can learn to love again
Oh tear ducts and rust
I'll fix it for us
We're collecting dust
But our love's enough
You're holding it in
You're pouring a drink
No nothing is as bad as it seems
We'll come clean
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
Oh, we can learn to love again
Oh, we can learn to love again
Oh, that we're not broken just bent
And we can learn to love again

Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Entroncamento

Deixaste de sentir? Diz-me, responde-me a esta pergunta que não me larga, colada a cada pedaço de mim. Deixaste de sentir? Tornaste-te numa pedra fria, dura, gelada que sabe apenas dizer futilidades, falar do tempo e assim, dos espirros e assado, das coisas que não doem e não vincam a alma?
Foi de um dia para o outro, entrei, encontrei-te ali sentada no sofá encarnado - não é encarnado, é rosa velho, dirias tu de olhar perdido numa revista qualquer - meia distante, meia longe das nossas coisas e do que sempre fomos e por aí tens ficado. Longe de nós.
Achas que me dá prazer estar assim?, perguntaste-me de olhos molhados depois de ajoelhar-me a teus pés e pedir-te por favor que me desses só mais um bocadinho de ti. Eu já não sei o que te dá prazer, a sério que já não sei o que te fazer, te dizer, deixaste-me perdido, deixas-me sem saber, já não me encontro quando me procuro nos teus olhos, muito menos na tua mão, longe que está da minha, tão longe que já nem me lembro quantas veias consigo contar, as tuas veias azuis grossas que me mostram os caminhos que há dentro de ti.
Deixaste de sentir, de me querer, de sequer pensar em nós?
Um dia cheguei e vi-te assim, meia fora de ti, meia longe do teu corpo, afastada do nosso tempo. Vê se percebes, não é que não estejas cá e dizes até o que é suposto dizer, falas do jantar, da roupa que compraste na net, tudo muito normal, demasiado normal, demasiado conversa de circunstância, demasiado de uma mulher que nunca foste tu.
Espera, disseste-me tu baixinho, como que voltando, por um momento, um instante só, à tua outra tu de sempre, Espera dá-me o meu tempo que eu precisar que eu volto já, mas espera. E lá te foste outra vez e nem a tua mão que prendi, nem o teu sorriso que tentei guardar, nem o arrepio que te senti na pele, nem nada do que sempre foste tu ficou. Só o teu corpo e esse teu cheiro a quente doce e bom.
E aqui estou à espera, minuto a minuto, dia após dia, agarrado à tua promessa fugidia, sentindo-me perdido à beira da tua estrada.

E, ao longe, ouvi-te sorrir.

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Só uma música


Hoje é só assim (só) mais uma música; esta que me diz tanto - talvez até cada vez mais - e que me acompanha há uns 12 anos. Hoje ouvi-a e apeteceu-me partilhar.
Aqui vai, The Scientist pelos Coldplay. Gostava de um dia conseguir escrever uma música assim.


Come up to meet you
Tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are
I had to find you
Tell you I need you
Tell you I set you apart

Tell me your secrets
And ask me your questions
Oh let's go back to the start
Running in circles; coming up tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start

I was just guessing at numbers and figures
Pulling your puzzles apart
Questions of science; science and progress
Do not speak as loud as my heart

Tell me you love me
Come back and haunt me
Oh and I rush to the start
Running in circles, chasing our tails
Coming back as we are

Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard
I'm going back to the start

Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Todos os dias

Li e gostei: «As pessoas mais importantes do mundo são as que me chamam mãe». E é mesmo assim.

Pois por isso todos os dias são dias da Mãe para mim, porque todos os dias são eles o que mais importa, os meus meninos do meu coração, que me enchem de amor e de cantigas felizes, de profundas olheiras e impaciências, de sorrisos e gargalhadas sem fim.
E o melhor presente deste dia - e felizmente de quase todos os dias - é tê-los acabadinhos de acordar de uma sesta curta e tardia, coradinhos e de olhos gordos, cada um em cada um dos meus braços, enrolados, enamorados, felizes por estarem no seu ninho. No nosso ninho.

E isto é mesmo o que mais importa. Hoje e em todos os dias de nós.

Sábado, 27 de Abril de 2013

História de Mim - Post um bocadinho piroso, mas enfim..

Hoje não é uma história de Nós, mas uma história de mim - se é que isto é português correcto... Bem, na verdade não é propriamente uma história, mas eu a contar um pormenor, um detalhe, um acento circunflexo meu, ou uma coisa assim.

Quando passei da 4ª classe para o 5º ano, essa mudança radical na vida de qualquer menina que assim se vê passar a ser considerada uma rapariga; os meus pais ou os meus avós (não sei ao certo), ofereceram-me um rádio.
Era um rádio que dava para gravar músicas que estivessem a passar, além de também ser possível gravar as nossas próprias vozes. Esta última potencialidade, que para mim era algo de absolutamente extraordinário, originou várias tardes bem passadas com a minha grande amiga da altura. Gravávamos cassettes e cassettes (coisa que os meus filhos provavelmente nunca saberão o que é) com emissões prolongadíssimas da rádio Martana, nome curioso e sem dúvida original que resultou da junção dos nossos dois nomes.
Nesse Verão em que fiz os meus dez anos e quando abandonada pela minha grande amiga que desaparecia todo o mês de Agosto para as termas de Monfortinho, passava as manhãs a gravar músicas da rádio. Na altura eu não sabia Inglês - só começaríamos a aprender no tão desejado e aclamado 5º ano - mas esta foi a primeira música que decidi gravar da rádio e que a partir daí passei a ouvir vezes e vezes sem conta e que desde então sempre me tem acompanhado.
Quando comecei a perceber a letra tornei-a ainda mais a minha música - sou uma romântica aguda e crónica, que posso eu fazer..? Hoje lembra-me os tempos em que nós meninas-mulheres acreditamos nos príncipes encantados e nos finais felizes. Nos amores únicos, sem contrariedades, nem barreiras, nem limites, nos amores-mais-que-perfeitos, nos amores que são para toda a vida «felizes para sempre».
Claro que crescemos e percebemos que não é bem assim.
Mas a verdade é que ao ouvir esta música - sim, um bocadinho pirosa é certo, completamente tirada do báu dos tesourinhos-a-tender-para-o-deprimentes, bem sei - não consigo deixar de sorrir e de acreditar que viver feliz para sempre é possível. Com esta música de fundo e a tua mão no meu coração.

"Eternal Flame"

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Is this burning an eternal flame

I believe it's meant to be, darlin'
I watch you when you are sleeping
You belong with me
Do you feel the same
Am I only dreaming
Or is this burning an eternal flame

Say my name
Sun shines through the rain
A whole life so lonely
And then come and ease the pain
I don't want to lose this feeling, oh

Say my name
Sun shines through the rain
A whole life so lonely
And then come and ease the pain
I don't want to lose this feeling, oh

Close your eyes, give me your hand
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Or is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming
Is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming, ah
An eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'
Do you feel my heart beating
Do you understand
Do you feel the same
Am I only dreaming, ah
Is this burning an eternal flame

Close your eyes, give me your hand, darlin'




 

Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

lullaby

sleep tight
sleep warm all night
feeling my breath on your neck
your skin against my back

sleep sweet
sleep deep deeply deep
on the whitest sheets
where my hand finally meets

your soul just laying there
your smile just simply there

and finally sweetly you sleep
and finally you're sound asleep





Sexta-feira, 5 de Abril de 2013

Amor é...

De vez em quando podia ser um grãozinho de areia, mínimo minúsculo para que não desses por mim, sentada no rebordo do teu casaco, deixando-me ir para o fundo da tua nuca, deslizando para o recanto dos teus olhos onde gosto de beijar, caíndo para o quente do teu peito - no teu calor no teu cheiro - a espreitar entre a tua camisa semi-aberta e deixar-me assim estar, um grãozinho de areia feliz sem tu saberes sequer de mim.
Era assim mesmo que podia ser. Eu em ti sempre que me apetecesse ver-te, ouvir-te, sentir-te - como tantas vezes tanta falta tenho - e tu sem saberes que afinal era eu quem estava ali a desassossegar-te e toda enfiada em ti em tudo o que fizesses.
Já me disseste «És o meu desassossego» e eu sorri porque gostei. Mas agora era melhor que fosse como naquela tua musica...ser a tua calma, a tua casa, o teu recanto. E fazer-te feliz porque me farias feliz a mim também.
Hoje descobri afinal o que é o amor. Depois de tantas definições lidas, explicações tentadas, pensamentos e reflexões, hoje saiu-me assim. Amor é o sentimento mais forte e mais verdadeiro. Seja em qualquer uma das suas formas. Talvez dito assim pareça frio e sem sabor. Mas é isso mesmo afinal, amor é o sentimento mais forte e mais verdadeiro, mais puro e sensível que posso guardar em todos os pontos de mim.
Se eu fosse um grãozinho de areia insignificante e vagabundo, não te ia fazer doer tanto, nem nada disto ia custar tanto assim. Porque ia ver-te, ia saber-te, sentir-te, provar-te e saber a que sabes nestes dias. Podia ser até que conseguisse contar-te ao ouvido o tanto que gosto de ti e assim tirar-te esse vazio frio de dentro de ti.
Mas não sou.
Não sou, nem vou ser e estou aqui eu toda eu a pensar em ti.
Mas se alguma vez sentires uma impressãozinha na pele, um roçar, um comicharzinho doce, já sabes que talvez seja eu com as minhas faltas de ti.

Sexta-feira, 8 de Março de 2013

História Pedida 28 (por Sandra Évora): Saudade

Como explicar isto? É uma coisa assim de dentro para fora, de fora para dentro, que anda à flor da minha pele, no canto dos meus olhos e escondida no meu sorriso.
Sou a sentinela da sombra do nosso amor. Atenta, alerta, vigiando o que restou - esta sombra em que vamos vivendo, com medo que se vá de vez.
O que dizer mais, quando já não há mais a dizer? Apetece dar um Chega às palavras, um Chega de tratados, dissertações, telenovelas e espigões na ponta de cada história que vamos escrevendo. Na verdade, a vontade que há, cá no fundo, cá Do fundo, é do teu abraço no meu, do teu beijo no meu, de nós os dois mais uma vez juntos. Mas que seja uma nova vez, sem os pesos do presente-passado-presente.
Estranho isto, não é?
Como explicar o que não tem explicação? É assim, ponto final. E é assim porque sim, porque somos assim, porque somos um para o outro assim, porque há qualquer coisa dentro de nós que chama pelo outro. Que grita imensamente pelo outro.
Não nos vamos soltar disto nunca, está gravado em nós, faz parte de nós. Tornámo-nos assim, ou somos assim. Eu para ti, tu para mim. E depois a distância, este estar longe sem estar, este muro, esta parede fria, que criei entre nós. Porque já não sabia mais como viver com apenas metade de ti.

E, então, a falta de ti. A falta de ti em mim,  a falta do que eu sou quando estou em ti. Só nós dois é que sabemos.. e não há canção que nos valha o sorriso que perdemos no tempo que não é nosso.

E agora não sei como acabar esta história de nós; talvez porque não tenha ainda chegado ao fim.


(Inspirada pelo lindo poema de Sandra Évora)
Saudade
Fecho os olhos
e voo nos braços da minha memória.
Voo para um mundo distante
e antigo
onde sonho
um prado verde
sobre o dorso do meu cavalo.
Sonho as paredes onde te vi pela primeira vez
e a árvore onde nos despedimos.
Sonho uma vontade imensa
de respirar os gestos e os dizeres
que te pertencem.
Sonho os teus lábios nos meus,
a doçura da tua voz
e o calor do teu abraço.
Sonho o teu olhar
e as palavras esgotam-se.


Sandra Évora


Sábado, 19 de Janeiro de 2013

Whishful tihinking ou Alerta amarelo III

Pés na areia, grão a grão, poro a poro. Fundo-me assim no mundo e deixo-me sorrir.
Se entrar então devagarinho no mar transparente, gota a gota, pedaço a pedaço, sei que por momentos deixarei de ser eu, passo a ser tudo.
Gosto dessa sensação assim, de diluir-me no mundo, tornar-me parte do que piso e do que sinto, deixar-me fluir além de mim.
Um dos meus melhores sonhos sou eu a flutuar nas ondas azuis, o mar a encher-me e tornar-me vazia, a respiração esquecida, eu no meio do nada. Eu sem ser eu, eu a ser parte de todos.
Um dia hei-de viver com os pés na areia e encher-me de mergulhos no mar, perder as horas e os dias, deixar-me apenas estar.
Vou encher a areia das palavras que gosto de escrever, vou deixar o sol do fim do dia pintar-me a pele das melhores cores e o cabelo andar em constante desalinho, ondulado, selvagem, carregado do sal desse mar que há-de ser meu.

Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

Natal Feliz!

Porque e' a minha altura preferida do ano, porque me faz sorrir e cantar, porque este Natal foi tudo o que um Natal feliz deve ser - familia, criancas, ternura, carinho, generosidade nos gestos e encontros, quero agradecer por estes diis dias imensamente bons. E como e' bom parar um segundo a inspirar o tanto de bom que temos na vida.
Festas muito felizes para todos os que me vao lendo e ao mundo e arredores!

Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

Lenga-lenga

Bom, bem bom, bom. Ai, ui, ai, ui. Estás, estás, estavas. Sabendo, sabias, sabemos. Um, dois, três, era uma vez a história de nós três. Anda, embora, fora, toma, anda, come, leva, leva-me, fica, fiquemos. Ri, risos, ri, sorri, sente, aperta, vive. Toma, toma-me, come, come-me. Olha aí, olha aqui, olha-me a mim, olha só o que aqui vai. Ouve lá, ouve cá, são gargalhadas, são doçuras, são mimos, são ternuras. Anda, embora, vamos, vai, leva-me, aperta-me, agarra-me, sente-me, come-me, enche-me toda, leva-me agora. Arrepios bons, borboletas all over, pontas dos dedos que comicham, cabelos que se arrepelam, coisas que só tu sabes, que eu sei, que nós sabemos nós dois. Vamos, vamos vendo, vamos sendo, com saudades do que era, com vontades do quem vem, das coisas boas, das luzes a piscar, das musicas por todo o lado, dos meninos a brincar e eu e tu e tu e eu e nós dois assim mesmo a sorrir na certeza de que tudo está quase a passar.

Domingo, 2 de Dezembro de 2012

...e muitos anos de vida

Já te escrevi muito... já te escrevi tanto! Letras que só tu e eu sabemos que são nossas, vontades rasgadas, pensamentos velados, gestos por acontecer. Já te escrevi tanto e muito e só tu sabes que estas palavras saem de mim para ti.
Meu amigo de todas as horas, minha ternura de todos os dias, minha paixão renascida em cada jeito teu, como poderei algum dia agradecer-te o tanto que me dás?
Cresço contigo, dou os meus trambolhões e safanões, as minhas cantigas e gargalhadas e tenho-te na vida que vou vivendo sabendo a minha na tua mão.
Um dia saberemos exactamente o que fazer de nós, um dia saberemos sem demoras o que serão os nossos dias.

E, agora, o caminho, este nosso caminho que vamos desenhando, este caminho que nos fazem viver.
Goza o caminho, dizes-me tu - e eu sempre nas ânsias do que vem mais além - goza o caminho, aproveita o nosso momento, o pouco tanto que temos, aquilo que somos nós.
Seja, venha o caminho, porque há momentos em que a espera até faz doer. Venha o caminho, a estrada e a tua mão na minha como prometeste. Venhamos nós encolhidos, enrolados, emaranhados no que há-de ser.
Tudo vai ficar bem. Sei.

Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

Banho Maria

Já deixaram alguém em banho-maria? Pois não o queiram fazer. 
É doloroso, nao só para o sujeito banhado - obviamente -, mas muito para quem o faz.
O sujeito ora se contorce e estrebucha indignado com o que se lhe está a suceder, ora se põe de cabeça para baixo, de jeito amuado, tentando desaparecer; ora ainda se deixa estar a flutuar no quente como se nada estivesse para acontecer.
E nós, perpretores de tão terrível feito, sentimo-nos atordoados,doridos, sem saber bem o porquê de fazermos aquilo - tal atrocidade! - mas numa necessidade incontrolável, visceral, de o fazer. Dói cada gemido que se ouve, cada súplica calada, cada palavra abafada. O sujeito ali, em lume brando, a marinar, a perguntar sem o fazer: até quando, até quando isto vai durar, até quando este entontecer, este atordoamento, este queimar lento? Para quê, para quê?
E nós ali, olhando, incapazes de mais, vamos controlando o lume, tentando que não queime de vez, esturrique, se desfaça e desapareça, a contar os segundos até esta necessidade ruim desfalecer.
Não queiram pôr alguém em banho-maria. Não é bom, nem pode ser. Custa e repuxa, dá medos por dentro de não se saber qual o ponto certo, a solução, o fim à vista. Não há receita que nos guie, conselho que nos valha, só deixar acontecer.



 

Sexta-feira, 16 de Novembro de 2012

Alerta amarelo II

Saltaste o telhado,
escondeste-te no mato,
mergulhaste no tempo do poço escuro
afogando-te assim,
para tocar os pés no fundo,
voltar para mim.

Na falha do precipício, na volta do mundo,
correste assim, fugiste,
largando-me na margem
de um lago espelhado,
um lago direito e sossegado,
numa volta, num revolteado,
no cheiro a alfazema
do tempo abandonado

Correste de mim, fugiste
disseste-me e não ouvi
tonta que estava, sorrindo que estava
E as palavras voavam soltas

no dia cinzento em que nasci
perdida de mim
em ti  

Sábado, 3 de Novembro de 2012

Alerta amarelo

Dou  por mim a gostar de dias de chuva. Antes não gostava; dias presa em casa, sem praia, sem rio, sem ar livre eram suplício. Mas agora sabe-me bem, estar em casa, no morno, agarrada aos meus meninos deslumbrados com a água que cai do céu. Embrulhamo-nos uns nos outros, falo-lhes com voz de mistérios e descobertas, eles atentos, de olhos bem abertos, apaixonados por mais uma novidade.
«E o vento mãe, por que não vem o vento e a trovoada mãe?» Sorrio. Nunca gostei de trovoada, a força estrondosa da natureza assusta-me. Mas agora gosto, gosto mesmo, gosto de estar com os meus meninos enrolados numa cama virada para a janela e ver os relâmpagos, contar até aos trovões, senti-los encolherem-se em mim com um sorriso de nervoso e felicidade.
Por isso espero que além desta chuvada e dia cinzentos de hoje, ainda venha um valente vendaval, uma trovoada daquelas, para tê-los sossegadinhos, agarradinhos a mim, admirados com o que se passa lá fora, enquanto aqui neste abraço tudo é perfeito.

Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012

A menina Aguaceiro II

Tenho sede dos teus beijos; a minha boca sente uma falta imensa da tua. E isto não é conversa pseudo-poética, é literal, físico, visceral e eu nunca pensei que se pudesse sentir a falta de alguém desta forma tão violentamente intensa.

Corro os nossos recantos na esperança inconfessada de um acaso em que nos encontremos. Re-encontremos de corpo e alma. Soa forçado, mas não é, de todo, é sentido em todos os poros e terminais de mim.

Fico aqui em frente ao rio, como tantas vezes ficámos, num sítio nosso e penso no que será de nós.

Tu dóis-me. Dóis-me, custas-me, pesas-me, por gostar tanto e tanto de ti. Mas há momentos em que a ausência de ti é insuportável, que a tristeza entra por mim dentro e sinto os braços cairem, eu toda a tombar e com vontade de deixar-me ir sem chão.

Corro, fujo, distraio-me, finjo não sentir, não lembrar, não querer. Passo à frente, ao lado, por cima. Escondo-me por dentro, viro-me do avesso, tento seguir, seguir, andar, passar, correr.

Mas há momentos assim em que a falta de nós entra pelo meu dia a dentro e só uma pergunta toda cheia em mim: como foi que Gostar muito de ti passou a ser Gostar demasiado?  

Terça-feira, 30 de Outubro de 2012

Bom astral


Hoje é só assim....uma música de que sempre gostei muito, com uma mensagem que faz muito sentido

Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Código de Morse


Ontem?

Não, hoje.

Mas a sério mesmo?

Sim, mesmo, a sério, muito a sério.

E tens a certeza que queres?

Sim, agora sei, daqui a pouco já não sei se saberei.

E não era para ter sido ontem?

Já te disse que não, hoje, só hoje é que é, não sei porque percebeste que teria sido ontem, quando te estou a dizer: Queria ver-te.

Porque disseste que querias. Não disseste «Quero».

É o Imperfeito de Cortesia. Lá tenho que estar eu a dar-te lições de Português..

Cortesia, comigo? Chegámos mesmo a isso? Depois dos anos em que estivemos lado a lado, segurando-nos, amparando-nos, de mão dada, vivendo juntos à nossa maneira? Cortesia…?

Ai, não leves a mal, não te prendas nesses pormenores dos meus preciosismos linguísticos. Estava a querer dizer-te que depois de todo este tempo afastados, desta tempestade sem fim, finalmente sei que quero sentir-te meu outra vez, que agora sei que, seja como for, hei-de ser sempre tua, que agora quando te liguei, naquele preciso e precioso momento queria o teu abraço no meu e adivinhava até as minhas lágrimas na tua pele ao primeiro toque. E tu só tinhas que responder «Vou já para aí» e agora estragaste tudo com estas tuas manias e agora afinal deixa, tinha que ser no imediatismo daquele momento, que já foi, já passou, foi-se e agora não sei quando voltará.

E volta?

Se não estragasses tudo, voltaria. E agora estou a usar um Condicional personalizado. Só para que saibas.

(E, finalmente, sorrimos.)

Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

´Tá de Chuva

Elogiei-lhe a fatiota aprumada de hoje. Camisa preta, gravata de riscas azuis claras, blaser castanho com quadradinhos encarnados (seria?). Ele a sorrir-se todo: Gosta dótôra? é que eu escolho tudo a condizer! E eu sem conseguir vislumbrar o que é que condizia ali e com o quê. Nada, claro. Mas ele feliz. Agora que anda de óculos novos até parece mais bem-posto, mais senhor de si. Não fossem a magreza extrema, a sujidade das mãos com que hoje apertou a minha e os dentes inexistentes e/ou mal tratados, até passaria por um de nós. Seja lá o que for isto de «ser um de nós». Mas é um mero arrumador de carros, estimado é certo, mas nesta vida indigente, a ter que pedir moedinhas, a esforçar-se por mostrar que se esforçou mesmo quando só aparece quando já estamos de saída.
Para que estou a escrever tudo isto? Ainda para mais já escrevi sobre ele outras vezes.
 Eu não sei bem o que é, mas acho que sou eu com vontade de descobrir nele uma história avassaladora, uma coisa digna de filme, uma daquelas que nos deixa numa choradeira desatada, uma revelação extraordinária que mostre que afinal ele é mais do que isto ou que algum dia foi. É curto isto. Mas na verdade ele agora até me parece feliz. Se calhar afinal até não é má de todo a vidinha que leva.
No outro dia dizia-me, Dótôra hoje despeço-me já porque vou sair mais cedo qu´hoje dá o meu Sportem na televisão. Ou vejo-o pegar no Peugeotzinho velhote (pasmei-me quando descobri que até carro tem!) e me atira òh Dótôra isto hoje está muito frio e apetece-me é ir para casa sossegado..! E é estranho isto, porque ele tem esta liberdade, este afoitamento, este entusiasmo a falar connosco, seus cliente habituais, nós que nos queixamos, eu que murmuro um Desculpe lá, porque só tenho uma moeda pequenina para lhe dar – e ele Deixe lá isso Dótôra, então a gente não se conhece aqui de todos os dias? - e lá vou a resmungar porque hoje apetecia-me mesmo era estar em casa enrolada com os meus meninos, porque está um dia cinzento e frio e não há melhor que o calor dos risos deles em mim.
E a verdade, como se sabe, é que não há moedinha que pague nem um bocadinho disso.

Domingo, 30 de Setembro de 2012

A menina Aguaceiro

Há dias assim, em que as coisas se complicam, o mundo fica mais cinzento e há partes de nós que nos doem. Há dias assim em que tanto corre mal e depois há o tanto bom que se tem. Há dias assim em que falta uma mão forte e doce para apertar, mas em que se sorri porque é tão bom ter uma mão pequenina dentro da nossa. Há dias assim em que não há certezas só perguntas e infinitos Se's, em que o sim é não, o não talvez, o talvez mais ou menos e por aí se vai. Há dias assim em que o sol se vai mais cedo, mas que nos descobrimos entre os risos pequeninos que enchem a noite.
Há dias assim em que me apetece encontrar um refúgio, um ninho, uma toca, levar os meus pequeninos comigo e deixarmo-nos estar em dias de sossego e muitas gargalhadas.  Iria para Setubal, para os meus avós, molhar-me com as mangueiradas no jardim, eu menina no meio dos meus meninos enlameados e risonhos. Eu menina no colo da minha avó que me iria entran¢ar o cabelo indomável como quando era eu pequenina, agora com os meus amores a brincarem a meus pés, com o meu avô que estaria ainda como era, a ensiná-los sobre a fábrica do cimento e as sementes que plantámos lá no quintal. Há dias assim em que só apetece paz e sossego, respirar fundo e ter quem tome conta de nós enquanto carregamos os nossos no colo.
Há dias assim que chegam ao fim e com cada uma das nossas crianças adormecida em cada um dos nossos bra¢os, afinal nos nossos lábios uma só palavra: obrigada. E assim, sorrindo, adormecer.

Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Equação de Nós dois

Gosto de ti mais que banhos de mar
Gosto de ti mais que pastéis de belém
Gosto de ti mais que o vento nos meus cabelos
Gosto de ti mais que a música a estalar nos meus ouvidos
Gosto de ti mais que a sombra das árvores em Agosto
Gosto de ti mais que férias demoradas
Gosto de ti mais que sestas na relva
Gosto de ti mais que risos com amigos
Gosto de ti mais que mergulhos na piscina
Gosto de ti mais que lençóis fescos na pele quente
Gosto de ti mais que um livro que me enche de histórias
Gosto de ti mais que escrever
Gosto de ti mais que muito, mais do que mais
Gosto de ti e era tão bom que pudesse ser só assim,
que fosse fácil assim,
que chegasse assim,
tu e eu
eu e tu
e no fim de tudo
tu com o meu cheiro a mim

Sábado, 15 de Setembro de 2012

Jogo de silêncios

Andamos neste jogo de silêncios. Há coisas que calamos. Muitas. Eu por isto, ele por aquilo, ou, no fundo, talvez os dois pelo mesmo.
Calo-me para não gritar o que me arde por dentro, para não me ouvir dizer o que sei que ele não quer ouvir.
Este nosso jogo de silêncios vem desde sempre. Enchemo-nos das coisas por dizer, sufocamo-las cá dentro até ao dia em que tudo sai numa torrente, num dilúvio, levando todos dentro. Todos, todos os que fazem a nossa história, todos os dias que nos doem, todos os medos e dores por dizer.
Hoje estou cansada deste nosso jogo.
Xeque-mate.

Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

Palavra d´honra!

Quando eu fôr grande quero ser como ela: grande, opulenta, de peito avantajado, seios poderosos, ostentosos, portentosos, a fazerem sombra a um umbigo embutido em carnes rijas e rosadas. A coxa larga e firme, tornozelo rechonchudo ainda que bem torneado.

Quero ser como aquela mulher na praia do porto de Sines, contando alto e bom som até três, para a minha amiga escanzeladota tirar-me fotografias sensuais, ora agora de cabelo a soltar mil gotas salgadas enquanto o atiro para trás no meio das ondas, ora enquanto me rebolo deitada, tão extraordinariamente sensual e descomprometida à beira-mar, com a espuma das ondas a ladearem-me as curvas acentuadas.

Quero ser como ela, de sorriso fácil e feliz, enquanto a minha amiga me tira fotografias a meu comando, perante o olhar espantado dos outros veraneantes, toda eu em alta-voz, toda eu bamboleante, toda eu gargalhadas soltas e olhos brilhantes.
O fato de banho preto é o toque perfeito. Elegância acima de tudo, que isto de ser descontraida não tem nada a ver com desleixo ou falta de vaidade. Não, um fato de banho preto bem decotado, que mostre bem o que é bom de ver, mas que me dè esta aura de robusta femme fatale perdida no meio do alentejo salgado é a cereja no topo do bolo.

Ser como ela, cheia, poderosa, rosada e sorridente deve ser mesmo do melhorzinho que há para se ser. Come-se do que se gosta e porque se gosta, na quantidade que apetecer, sempre de ar saudável, satisfeita, altamente curvilínea e gargalhada potente. Toda ela potente. E absolutamente feliz.

As fotografias talvez vão para o rapaz lá da faculdade que todas cobiçam, ou talvez até se aventure a enviar para aqueles programas de televisão que nos dão 5 segundos de fama.. Nao interessa, talvez nem vão para lado nenhum e fiquem até por revelar. O momento foi bom e é o que importa. O caminho é que interessa, não o destino.

Por isso, eu quando for grande quero ser assim como esta mulher reluzente e cheia que vi dançar na areia e cantarolar uma música sexy enquanto saía em camara lenta das ondas.

Talvez no próximo Verão seja eu a rebolar um peito cheio, pesado, nas ondas mornas, a posar para uma máquina fotográfica, a cantar baixinho uma músiquinha sensual. E talvez tenha até alguém por perto a gritar-me bem alto: já está!

Sábado, 8 de Setembro de 2012

Quando eu for grande quero Escrever

Um dia hei-de escrever algo extraordinariamente belo. Palavras bem encadeadas que tirem desta expressão toda a sua presunção e arrebitamento.
Um dia hei-de conseguir libertar-me de mim e dos meus mundos, elevar-me acima do terreno e escrever num fluxo natural, corrido, translúcido, todas as palavras, virgulas e reticências que sejam um elogio perfeito à língua escrita.
Um dia hei-de conseguir toda eu brotar-me em flor, encontrar toda a cadência certa e compasso acertado para mostrar-me de dentro para fora, numa perfeição que me mostre sublime.
Um dia hei-de ser escritora, nem que só por um texto, por uma história, por umas linhas perfeitas, absolutas, leves, que no fim me deixem solta, cheia, feliz.
Depois pego na folhacheia e perfeita, aperto-a no peito, escondo-a na minha caixa dos tesouros e sorrio o meu sorriso mais sincero, porque hei-de ter o meu maior segredo só para mim.

Segunda-feira, 6 de Agosto de 2012

Volto Já

Vontades de mais. Vontade do teu corpo abandonado em cima do meu, mas com delicadeza, por favor, sem estragar muito, se não for incómodo, mas, sim, o teu corpo abandonado em cima do meu, entregue a ti.

Os teus dedos contam os meus, um a um e tenho apenas vontade de dizer lamechices, porque é bom gostar de ti e é bom gostar de ti assim. Gosto que me vejas de ponta a ponta, de fio a pavio, de te sentir perdido nos cantos daquela que sou quando estou contigo assim.

Doi-me a ponta do ombro e tu sorris. Passas as mãos nos meus encaixes e rangidos e sabe-me bem.

Os dias bem que podiam ser sempre assim. Sossegados e frescos. Mas está na hora, mais uma despedida, mais um Adeus. Para ti são sempre Até já's, mas eu prefiro dizer-te Adeus quando os Já's estão longe demais. Vamos vivendo assim e há qualquer coisa de muito bom nisso, qualquer coisa de muito bom em ti abandonado em mim, sossegados e frescos, num dia de Verão como estes que vamos tendo para nós.

Amanhã a praia, a areia na minha pele, o mar aos meus pés. Respiro fundo. Os risos entram cá dentro e sinto magias à flor da pele.

Meu querido, meu doce, até já.




Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

Salto em altura

Hoje o vento cheira a novo, a coisas por fazer, por experimentar.
Hoje a manhã fresca traz-me o sabor a ti e ao que estamos para ser.
Hoje fiz-me senhora do mundo e apertei no peito a luz e o som dos teus passos na minha sombra.
Hoje revelei-te mais um segredo meu, mais uma folha do meu caderno. Sentei-me empoleirada na beira de muro nenhum, deixei os pés balançarem no teu respirar na porta do meu ouvido.
Conta-me mais, disseste tu sem dizer.
E assim me calei porque não sei responder a pedidos, nem sequer a vontades de mais de mim. Se me queres ver como sou, deixa-me andar, fluir, sentar-me no teu colo, beijar-te o cabelo e ser feliz so assim.
O meu mundo é feito de coisas simples, deixa-me apenas estar e assim crescer.
Não preciso de muito, não quero tanto assim, apenas mais de ti para eu ser mais de mim para ti.
Um dia vais entender-me, vais chegar mesmo lá, ao cerne da minha questão. Mas não é hoje, hoje ainda não. Hoje ainda só me pegas como eu gosto, só me beijas como eu quero, só me deixas enleada em ti. Nao faz mal, nao te preocupes, preciso deste caminho assim. Pois, hoje nao, talvez amanha já me consigas ver a mim.

Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

TPM ou Mulher à beira de um ataque de nervos

Há dias assim, em que as palavras custam e os gestos ainda mais. Há momentos assim, tempos assim, em que se tem pouco quando se quer muito, em que se sente mais a falta de qualquer coisa mais, em que a sede parece interminavelmente insaciável.
Não é pouco o que queria, mas muito não é também. Queria mais um tempo de nós, mais um passo marcado bem fundo na nossa pele e na história do que vamos sendo e do que seremos, quem sabe, um dia.

Ás vezes o pouco é demasiado pouco. Ás vezes um sim, não chega.

Dói, mas também não faz mal doer. Só mostra que ainda importa, que ainda conta, que afinal é bem mais do que podia ser.

Por aqui me fico e assim me despeço de nós. Pode ser que nos encontremos outra vez. Que voltemos a ser o que um dia fomos, há não tanto tempo assim. A partir deste momento somos outros, juntos sim, a querer o mesmo tanto que sempre quisemos. Mas com uma cicatriz, uma ruga, mais uma dor de crescimento. Parto difícil este, o da nossa história.

Ainda que ainda um, somos então outros e as despedidas fazem-me sempre doer.

Terça-feira, 12 de Junho de 2012

Santos populares

Dona Sofia comia e lia, comia e lia e era assim que vivia. De vez em quando, uma vez por dia, encolhia-se e ria. Do quê, não sabia, mas ria e ria até que mais não podia.
A vizinha Maria chegava-se à janela, ajeitava-se e dizia
«Dona Sofia, Dona Sofia então como vai ser o seu dia?»
Ela, na cadeira que rangia, atirava um «Nada» que gemia.
A Vizinha Maria encolhia os ombros magros numa delicadeza que até doía, voltava-se para dentro e lá ia.
Dona Sofia gorda e pesada, lia e comia, comia e lia, pensando que assim vivia.
Mas, assim que anoitecia, na cama gelada e fria, Sofia lembrava o que já fora, lembrava que um dia naquela cama já tivera companhia.
Chorava pela sua cria, que se fora atrás de uma qualquer vadia, deixando a mãe - que mãe e pai sempre seria - só, gorda e fria. Desde pequeno sempre o quis bem debaixo da asa que agora se lhe pendia.
Não sabia do seu menino, há anos que não o via, não o cheirava, nem o ouvia e era nos livros que o tempo  mais corria, nas vidas dos outros que não foram deixados em valente agonia, de outras gentes de vidas contadas com alegria.
Dona Sofia às vezes ria. Mas o porquê só ela sabia. Talvez fosse nervoso, talvez um nada, talvez fossem os astros em sintonia...só ela sabia, só ela percebia.
O seu menino quando voltou, de loira pelo braço, criança no ombro e carro de elevada categoria, já só soube da mãe, da gorda e só Dona Sofia, por esta cantilena que o povo inventou, chorando a triste sorte da perdida e vazia Sofia.


Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Hoje, em Junho, nevou

Hoje apetece-me que me escrevas, me enchas com palavras tuas. Hoje seriam duras, frias, brutas como tu sabes ser. Apetece-me ler-me entre as tuas letras e virgulas, apetece-me que sejas tu a escrever-me.
Não estou para coisas dóceis, nem imbecilidades. Estou para crueza, frieza, tudo o que for áspero e certeiro. Na mouche.
A água gelada com que me vais esfriando, dia a dia, momento a segundo, vai por aqui escorrendo, encontra-se toda junta na minha sombra molhada e acompanha-me, dia após dia, mesmo que eu, pisando-a, finja não a ver
Hoje estou dura, estou pedra, estou rocha.
Hoje perdi os sonhos de menina, acordei na realidade. Alternativa.
Hoje apetece-me que me faças uma declaração de amor, num sítio público, mesmo sem dizeres quem és, nem quem sou. Só assim umas palavras que eu veja logo o quanto sou tua e que vale a pena esperar  por ti. Se é que existes, se é que és o homem para mim.
Agora estou a precisar de um colo, talvez para chorar, talvez só para não me sentir tão perdidamente sózinha. Só. Talvez até para me rir sem parar, me rir feita tonta, me rir esquecida do resto, me rir perdida, e logo encontrada no canto do teu sorriso igual ao meu.
Hoje estou assim, meia coisa, meia estranha. Meia-meia.
Fazia-me bem dormir, acabar com os disparates, sossegar a minha sombra, sossegar-me a mim.
A cama vazia não ajuda, mas a promessa de nós sim.

Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Gabriela, cravo e canela

Cheiras-me a canela, sabes-me a canela. A canela picante. Não é que saibas mesmo, mas a cor da tua pele, do teu cabelo, das tuas ancas é canela e é quente.
Sei que não devia dizer-te isto, nem cantar-te ao ouvido, nem sequer mostrar-te o quanto te quero. Mas tu és assim como que um bocadinho de mim, que anda assim longe de mim, que me quer assim perto mas também me afasta, que sabe melhor que eu o quanto te preciso, que me enleia nesse perfume cor de pele e me deixa de cabeça pendida.
Se um dia me deixares pegar-te na mão e, de vento nos cabelos, me deixares levar-te até aquela curva na Arrábida, vou dizer-te o quanto te quero e gosto de ti.
Sabes que sou Poeta, mas só me inspiras prosa. Estou capaz de encher folhas e pedras e troncos de árvores e até paredes e estradas, só de palavras de mim para ti. Minha musa ausente, de mim apartada.. Vejo-te no braço daquele bem-posto, bem-falante, de finas famílias e que te dá as casas, as férias, os ouros, a vida que julgas querer, mas não te dá nem uma pontinha do sonho em que eu te posso levar comigo.
Esta é a história de um amor que tu dizes impossível, que dói , mas que também não faz mal doer - porque é nosso, porque assim és minha -, que se vai escrevendo entre poemas sem rimas e infinitas declarações proseadas e assim, letra a letra escreve o que há-de ser de nós.
Não queria ser novela, prefiro para nós uma crónica. É que, sabes, esperar faz ferver, faz doer, faz perder  a cada momento que passa, mais uma letra da história que pode ser a nossa. Ou podia, já nem sei.
Sabes-me a canela, cheiras-me a quente. Anda para mim, pode ser que te escreva uma rima no dia em que  te tiver ao acordar. No dia em que nos deixares começar...



Segunda-feira, 21 de Maio de 2012

P.S.

Tens que perceber que quando te digo «Gosto de ti», não é uma coisa simples como parece. É uma coisa cá de dentro, do fundo, do ventre. Para que percebas melhor: cada Gosto de Ti digo-te assim mesmo, esventrada, desnuda, exposta, esquecida de tudo de mim.
Com as horas, os dias, os anos, aprendi - com o tempo, sei -, que há coisas que não se explicam, sentem-se apenas. O Tu e Eu é um desses porquês para o qual me resignei a não haver qualquer tipo de racional.
Dói, fere a cada momento terminado, a cada ausência, a cada limite de nós.
Enche, sossega, cura e cuida a cada momento em que tenho a tua pele na minha.
Meu querido, meu doce, minha paixão, meu Gosto de Ti até ao infinito de mim, meu ser fora do meu corpo, meu interior que vive exposto, meu desejo que corre em mim, minha vontade que nasce desfeita, que será de nós?
Acho que descobri a resposta à pergunta do outro dia, à pergunta de sempre: E afinal que somos nós dois?
Cúmplices.
Somos cúmplices na vida, no que sentimos à for da pele e em cada respirar.
Somos um que é quase um, dizias. Acrescento, agora já sem rir, já mesmo sem sorrir, já mesmo de lágrima apertada num canto do meu Eu: somos Um que rebenta de vontade de ser Um.
Somos os cúmplices que sabem todas as repostas, mas que as calam.
Amar dói. E eu gosto tanto de ti..

Depois de ler um lúcido e acertado texto de Miguel Esteves Cardoso, So Um Mundo de Amor Pode Durar a Vida Inteira
http://www.citador.pt/textos/so-um-mundo-de-amor-pode-durar-a-vida-inteira-miguel-esteves-cardoso

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

Som de mim

A música enchia a sala. Estava dentro de mim. No meu peito, no meu ventre, na minha cabeça, na ponta das mãos e pés. Nestes momentos toda eu sou música. Quem me dera viver assim. Com a música em todos os milimésimos de mim.
A voz rouca da fadista, o som pujante das guitarras com a orquestra. A dança eléctrica e contagiante da brasileira. As vozes de tantos num coro só, ao som das cordas e da bateria.
O poder da música. Fecho os olhos e deixo de ser uma pessoa só. Sou muitas e sou nenhuma. Saio do meu físico e vou mais além, pairando sobre o momento.
Com sorte encontro ao meu lado alguém que vive amúsica como eu, de sorriso nos lábios e tremores cá dentro. Que se enche com a música.
Ás vezes não é preciso mais que isto. Nem palavras, nem mais em que pensar. As palavras às vezes magoam, o que pensamos às vezes fere.
Sentir apenas. Ser apenas.
Amar.

Terça-feira, 3 de Abril de 2012

Primavera

Brotaste em mim qual desejo em flor
Peguei-te, toquei-te, colhi-te
E enchi-me do teu sabor

Passaste os dedos quentes demais
Na linha funda que me separa
Que me divide em duas metades tão pouco iguais
Uma leve, outra carregada
Uma inteira, outra derrotada
Uma plena, outra desviada

E esta tontura que me acompanha
E este silvo e desvario
São apenas o espelho
Do outro eu, que és tu num corrupio

Esconde-me agora o olhar
Passa a mão num canto meu
Aperta-me num doce embalar
E sossega-me, finalmente, com um beijo teu

Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Arco-Íris


Foram mil gotas de água
Que aqui entraram
Numa corrente
Numa torrente
À procura de quem não encontraram

Chegaram-se aqui à beira
Olharam-me e encolheram-se
Que não as queria
Que não são para aqui chamadas
Não me quero molhada
Não me quero fria e gelada

E elas assim se foram
Sem perceber ao que tinham vindo e ido
Que afinal eu já não era disso
Tristezas já a tive
Choros já não os quero
Vão-se para outros olhos
Outras casas que não a minha
Outras vidas que não esta
Suas mil gotas atoleimadas
Impertinentes
Desencontradas,
Aqui já não têm lugar
Aqui agora já não é assim

E lá se resignaram e foram
Talvez à procura de uma outra eu que já não sou
Talvez tristes por já não me terem
Talvez sozinhas e perdidas
Mas eu é que já não as quero por aqui
Agora são só risos e maravilhas
Alegrias e cantorias
Agora que neste calor de Verão
Acabou-se o que era aflição
E sorrio-me toda enquanto me levas, assim, pela mão

Segunda-feira, 19 de Março de 2012

História pedida 27 (por Anónimo, com o Mote abaixo referido): Era uma Vez...

PARTE I

Personagens - Enquadramento:

Ela, a loura - Vinte e muitos, barriga redonda, pesada, carregada dos 9 meses que já terminaram há 2 semanas. Cabelo louro, olhos azuis, magra, alta, elegante. Sorriso desmaiado, voz sumida, olhar cheio de mundo dentro.

Ele, o marido - Trinta's, muito moreno, olhar cerrado, sorriso difícil. O charme de um homem superiormente inteligente. Um coração bom, mas pouco dado a manifestações.

A outra Ela, a mãe - Dura, seca, escura, com opinião sobre tudo, áspera, fria. Todos se perguntam que mal lhe terá acontecido na vida para a falta de afecto, a absoluta ausência de calor.

O outro Ele, o poeta - Apaixonado pela loura de barriga redonda,  encantado desde que a via de longas tranças amarelas, de queixo nas mãos,  deslumbrada enquanto o via declamar os seus poemas na aula de português. Ele, o professor poeta. Ele, o preterido.

O Tempo - 1930's

O Espaço - Uma cidade perto do mar. Pode ser Setúbal. Ou Aveiro. Ou algures no Algarve. Mais à frente se decidirá.

O Mote - «Eu nunca tive jeito para peixe de rio...nem jeito nem feitio..»


CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS:

A Loura tem um parto «verde», o marido deixa-a entregue em agonia às freiras, a mãe vai dizendo às vizinhas, dia após dia após dia que está tudo bem, e o Poeta pondera a sua sorte.

Sábado, 17 de Março de 2012

Línguas de perguntador

Come closer, closer, yes right here, that's perfect. Now sing me something new, use your sweetest voice, right here, just nearby the bottom of my ear.
Now tell me how you love me. Not how much, but how you love me. I'll show you: I love you deep my love, I love you tight my love, I love you all my love.
See? Easy right? Now it's your turn. I'm not asking you all that much, just need to know if you love me the same way I do love you. Not how much, but the same thing, the same love. Yes. That would be just beautiful.
Your kiss closed in my hand. Your skin touching my lips. The words you don't say laying in your eyes. Yes, I think I know what you mean.

Well, but do I..?

Quinta-feira, 15 de Março de 2012

Hoje é só assim: Parabéns ao meu marido, pai dos meus filhos, parabéns por ter conseguido hoje o que tanto sonhou, esperou, planeeou; parabéns por ter dado o grande passo em direcção à vida que sempre desejou para si e para nós.
Quem espera sempre alcança, ouvimos dizer desde tenrinhos.. E não é bom - ainda melhor - se a espera for assim tão curtinha como esta?
É bom celebrar, comemorar, felicitar. Há uma palavra que é a que mais me está na ponta dos dedos, à beira da minha boca..não lhe encontro tradução que traga toda a amplitude do seu significado para a língua portuguesa. Fica apenas assim: Enjoy!

Terça-feira, 13 de Março de 2012

The End

Perdeste-me
sem aviso
sem alerta
sem notícia sequer

Perdeste-me
e fui para longe
sem ti à vista
e renasci mulher

Largaste-me
desabraçaste-me
deixaste-me cair
sem saber o que fazias

Não haverá um tempo-espaço
não se seguirá um depois
perdeste-me tanto imensamente tanto
já não pertences aos meus dias

Perdeste-me, fui
embalada nas palavras duras
na aspereza da tua voz
no tanto que me gritaste
na imensidão do ficar só

Perdeste-me,
perdeste-nos
e o pior, o que aperta fundo
é que eu também te perdi
e me perco assim agora
na ausência de nós dois

Domingo, 11 de Março de 2012

100ª Mensagem Publicada. Parece-me digno de uma espécie de comemoração


Hoje é dia de festa. Dia de celebrar. Porque se conseguiu, porque se fez. Assim dá gozo respirar. Fundo bem fundo. E Parar.
Parar.
Parar realmente.
Fechar os olhos.
Respirar fundo. Bem fundo. Ir ao fundo de nós.
Abrir os olhos. Abrir os olhos com um sorriso pendurado nos lábios.  Ter um sorriso bem dentro de nós, cheio de vontade de saltar cá para fora.
Aproveitar bem - bem, bem, bem! – as coisas pequenas, os momentos, as relações, as pessoas, os olhares, as emoções. Os gestos, os carinhos impensados, as palavras doces irreflectidas.
Ser genuíno, intenso, verdadeiro. Sentido.
Um suspiro, um desabafo, os risos dos meus amores e todas as sensações assim, tão à flor da pele, mesmo como eu gosto.
Ter o prazer de ter a vida – a vida tal como ela é – com alguém que nos segure a mão sempre que preciso fôr.
As cumplicidades, as intimidades, as palavras já esperadas e conhecer até ao fim.

Encontrar estes momentos para parar. Lembrarmo-nos de respirar fundo de vez em quando.
Lembrarmo-nos de tudo o que é espontâneo, transparente, das coisas boas na ponta dos dedos, dos frios na barriga e, cantando, sossegar as vontades de crescer.
E ter-te a ti a meu lado, para quando eu perguntar "Demorei muito?", responderes com doçura "Demoraste o que tinhas que demorar" e encontrar a perfeição assim.

Parar.
Parar para sentir.
E descobrir como é bom tudo o que temos na palma da mão. E dentro de nós. E depois voar. Voar sobre uma noite, uma praia, o mundo. E dar um abraço apertado, bem apertado à Vida.

Sábado, 3 de Março de 2012

De ti para mim

Se o rio fosse a lado nenhum
E nós fossemos mais que um
Se o céu gelado
Calasse o teu gesto cansado

Um dia ele te diria
- Ele, o rosto que ruía -
Que o teu corpo houve um dia
Que ao meu já sabia

E as flores desabrochadas
No teu ventre demolhadas,
Cheiram a um pedaço de ti
Que desapertei, provei, comi

Feito bicho
Feito fera
Feito eu
E o que ainda não era

Um esboço
Um princípio
E na curva do teu pescoço
...O início!