Um desafio aos leitores!!

Já que umjeitomanso.blogspot.com me «anunciou» enquanto Contadora de Histórias, vamos lá pôr-me à prova! Quem se interessar, envie-me email (diazinhos@gmail.com) ou deixe comentário num dos textos, com uma palavra ou frase que me «inspire» para um próximo texto. A ver se pega e a ver se estou à altura..

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Laranjas doces

A música tolda-me as vistas, Rui. Desliga-me lá essa cantoria, que essa algaraviada tolda-me as vistas, Rui.

Luísa, Luisinha como os pais lhe chamavam, já não sabia trabalhar se não fosse no mais fundo dos silêncios. Era vê-la toda debruçada sobre uma camisa, uma almofada ou um par de calças qualquer, a costurar, costurar, balançado-se como sempre fazia e costurava, costurava horas e horas a fim.

Desde pequena que a Luísa, Luisinha como todos antes lhe chamavam, gostava de pegar na agulha e coser, coser roupas para as bonecas, casaquinhos para os bebés das vizinhas e vestidos de chita para si.

Desde aquele bem-dito dia em que a Tia Elisa a sentara no colo, pequena, pequenina - uma catraia como costumava dizer -, as duas debaixo de uma das laranjeiras do quintal, e lhe mostrara diante dos olhos muito abertos, como um pedaço de pano verde, se transformava, em poucos segundos, numa nova saia para a pequena. Desde esse dia que a Luísa, Luisinha como lhe chamavam as vizinhas, não queria saber de outra coisa que não costurar.

E foi assim que Rui a conheceu. Debaixo das laranjeira das tias, o sol já a pôr-se e a pequena a baloiçar-se debaixo da árvore, debruçada sobre um pedaço de pano qualquer, numa das suas criações inexplicáveis. Ele deixou-se ficar assim, atrás do arbusto da entrada, a vê-la, os cabelos negros em fogo, a agulha que ia e vinha, vinha e ia, frenética, enquanto ela se balançava, não sossegando até acabar. Só quando deu o trabalho por terminado, estendendo-o diante dos olhos, sorrindo um sorriso feliz, qual criador olhando para a sua obra prima, só então Rui foi sentar-se, de mansinho, perto dela. Fizeram conversa nesse e noutro e outro dia, cresceram os dois namorando debaixo da laranjeira das tias, entre pedaços de pano, carretos de linhas e beijos roubados e foi aí mesmo, enquanto o sol se punha, que ele a levou para casar.

Só que hoje o Rui já se cansa de a ver balançar-se, sempre agarrada à agulha, ao dedal, aos panos sem fim. As crianças já cresceram, já têm as suas próprias crianças e agora já só está ele com a sua Luísa, Luisinha como sempre lhe chamou, e as suas linhas coloridas, dedais e tecidos infinitos.

Nem a sua música já o acompanha, porque ela já tem que fazer um esforço para se concentrar, os olhos já não são os mesmos, já lhe custa a costurar. Por isso já nem pode ouvir as suas óperas, os tenores e sopranos, porque ela grita-lhe sempre lá do fundo da sala, do seu cadeirão encostado à janela – Baixa-me essa música, Rui!, Essa música tolda-me as vistas, homem!

E ele levanta-se pesadamente, põe as óperas baixinho, baixinho, para se poder encostar na cadeira de verga, fechar os olhos e lembrar a sua Luísa, Luisinha como ainda lhe chama, debaixo de uma laranjeira, sentada na erva fresca a baloiçar-se, enquanto costura mais uma as suas extravagâncias.

É por isso que sorri, mesmo quando sabe que está sozinho em casa, que as crianças já nem aparecem e a sua Luísa está lá dentro, sozinha, curvada, a costurar…

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